Quem passa, dança
Circulação do espetáculo Passos
da Compassos Cia de Dança

Com 36 anos de estrada, a Compassos Cia de Dança leva o espetáculo Passo, criado em 2017, a quatro bairros entre Recife e Olinda. Foto: Morgana Narjara / Divulgação

As apresentações desse circuito são gratuitas e conta com oficina aberta e Libras em cena. Foto Divulgação

Na apresentação recente no Solo São Gens, no bairro do Recife. Foto: Júnior Sampaio / Divulgação

Uma praça num fim de tarde. Pessoas passam apressadas, distraídas, carregando sacolas e preocupações. De repente, seis corpos começam a se mover no meio do terreiro, sem palco, sem distância. Um convite silencioso. Quem quiser, entra. Quem quiser, dança. Quem quiser, apenas fica e sente o chão vibrar.

Essa é a ideia por trás de Passo, espetáculo da Compassos Cia de Dança que circula entre Recife e Olinda de 16 de outubro a 6 de novembro. A montagem acabou de passar pelo projeto Sextas da Gen(s)TE, no Solo Gens, e agora escolhe as periferias para continuar andando, com entrada gratuita.

Uma companhia que não para de andar

Raimundo Braanco, diretor da Compassos. Foto: Júnior Sampaio / Divulgação

A Compassos completa 36 anos em 2026 e está entre as companhias mais longevas em atividade no Brasil. Foi fundada em 1990 pelo bailarino e ator Raimundo Branco, formado no Balé Popular do Recife entre 1976 e 1984 e hoje uma das referências da dança pernambucana. Desde o primeiro trabalho, a companhia mistura dança popular e contemporânea com teatro, um caminho que rendeu prêmios ao longo da trajetória, como o de melhor espetáculo da Apacepe por Oratorium, em 2000, e cinco premiações com Em Anexo, em 2006.

Desde 2007, a companhia desenvolve a pesquisa Dança do cotidiano, que mistura movimento, memória e vocalidade e leva para a cena o corpo comum de quem trabalha, brinca e resiste. É dessa pesquisa que Passo se alimenta. Criado em 2017, o espetáculo estreou em circulação pelo interior de Pernambuco, com apoio do Funcultura, passando por 12 cidades e distritos, além de apresentações no Paço do Frevo e no Festival Internacional de Dança do Recife. Nove anos depois, continua em movimento.

Por que essa dança é para você

Seis artistas cruzam capoeira, cavalo-marinho, maracatu rural, teatro de bonecos e dança contemporânea,

A dança costuma parecer coisa distante. Coisa de quem estudou anos, de quem tem técnica, de quem vive no palco. Passo desmonta essa ideia. O espetáculo se assume como uma grande brincadeira de folgazões, aqueles que guardavam a semana inteira para cair na dança dos terreiros, entrando somente depois de pedir licença aos donos da casa.

Em cena, seis performers bailarinos e atores cruzam capoeira, cavalo-marinho, maracatu rural, teatro de bonecos e dança contemporânea, com saias penduradas em varas de bambu ocupando o espaço. O elenco reúne Ana Bione, Fernando Rybka, Patrícia Costa, Marcio Sá e Sandra Rino, artistas criadores de formações diversas. Eduardo Calixto completa o grupo como tradutor de Libras e performer, unindo a língua de sinais à dança.

Os artistas conversam, dançam, brincam e convidam quem cruza o caminho a experimentar o brinquedo. A fronteira entre palco e plateia desaparece. Quem assiste vira parte. Para Raimundo Branco, Passo é um rito de presença, de memória e de reinvenção, feito para circular e para ser visto de perto.

Um espetáculo que caminha

Sandra Rino, bailarina da Compassos. Foto: Júnior Sampaio / Divulgação

A inspiração vem de longe. O poema drmatático Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto, atravessa a criação. Como a personagem Severino, que percorre estradas sem fim, Passo é um espetáculo migrante. Visita praças e terreiros, rios e córregos, no campo e no asfalto. Pede para estar em cada lugar e apresentar o seu brinquedo.

A caminhada começa no dia 16 de outubro no Ponto de Cultura Lua de São Jorge, na Cidade Tabajara, em Olinda. Segue pela Escola de Danças Populares Família Pernambuco, em Casa Amarela, pelo Centro de Artes e Comunicação da UFPE e termina no COMPAZ Atriz Leda Alves, no Pina. Em cada parada, oficina e apresentação, sempre com bate-papo depois. Parte dos locais escolhidos tem ligação direta com a história do diretor, centros de capoeira administrados por mestres que passaram pela sua formação nos anos 1980, um detalhe que mostra como a rota é afetiva.

Dança que acolhe todo mundo

Eduardo Calixto atua como tradutor de Libras e performer. Foto: Júnior Sampaio / Divulgação

A acessibilidade aqui não é detalhe. A Língua Brasileira de Sinais é performada pelos artistas e pelo tradutor-intérprete Eduardo Calixto, reconhecida como prática artística viva e contemporânea. Crianças, jovens, adultos, pessoas surdas, todos são bem-vindos. A programação é livre e gratuita.

Quem quiser ir além pode participar da oficina O Passo do Brincante, gratuita, para pessoas a partir de 12 anos. São três horas para experimentar os passos do frevo, do cavalo-marinho e da capoeira de Angola, além da movimentação dos caboclos do maracatu rural. Não é preciso saber dançar. É preciso ter vontade. Na turnê de 2017, a oficina foi além e convidou participantes locais para compor o elenco em cena, marca do espírito de troca do projeto.

Passo é um convite para redescobrir a dança como algo que pertence a todo mundo. Não como espetáculo distante, mas como brinquedo, encontro e memória viva das tradições populares. E a Compassos não pretende parar. Depois dessa temporada, Raimundo Branco segue em estudos para um projeto solo previsto para 2027, o próximo passo de uma caminhada que, aos 36 anos, ainda tem muita estrada pela frente.

Fernando Rybka, em primeiro plano. Foto: Júnior Sampaio / Divulgação

SERVIÇO

Temporada Passo, da Compassos Cia de Dança.
Entrada gratuita, classificação livre.

Ponto de Cultura Lua de São Jorge
(Av. Potiguar, 29, Tabajara, Olinda)
Dia 16/10, sexta-feira 16h, oficina O Passo do Brincante e bate-papo
19h, apresentação de Passo e bate-papo

Escola de Danças Populares Família Pernambuco
(Rua Visconde de Taunay, 207, Casa Amarela, Recife)
Dia 22/10, quinta-feira, 18h, oficina e bate-papo
Dia 24/10, sábado, 16h, apresentação de Passo e bate-papo

Centro de Artes e Comunicação da UFPE
(Campus Cidade Universitária, Recife)
Dia 28/10, quarta-feira, 19h, oficina e bate-papo
Dia 30/10, sexta-feira, 18h, apresentação de Passo e bate-papo (horário sujeito a alteração)

COMPAZ Atriz Leda Alves
(Rua José Rodrigues, 586, Pina, Recife)
Dia 04/11, quarta-feira, 19h, oficina e bate-papo
Dia 06/11, sexta-feira, 19h, apresentação de Passo e bate-papo

Mais informações no Instagram @compassosdanca

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A Invenção do Nordeste em
temporada na Caixa Cultural Recife

Henrique Fontes interpreta um diretor que prepara um ator nordestino para fazer, com maestria, um personagem nordestino. É pura ironia. Foto: Carlos Gomes / Divulgação

Dois atores do Rio Grande do Norte passam sete semanas em preparação para parecer nordestinos o suficiente. A fábula é o ponto de partida de A Invenção do Nordeste, do Grupo Carmin, e de uma pergunta que incomoda o país inteiro. Quem inventou o Nordeste, e para quê? A montagem dirigida por Quitéria Kelly estreou em 2017, já percorreu 23 estados e várias cidades da Europa, e chega ao Recife na semana que antecede o segundo turno da eleição presidencial, com o estigma nordestino de volta ao centro do debate.

Em cena, uma grande produtora do Sudeste contrata um diretor para escolher e preparar um ator nordestino que interprete, com maestria, um personagem nordestino. Dois concorrentes chegam à final, um do litoral, outro do interior, e disputam o papel num workshop de sete semanas. Os atores entram em palco com os próprios nomes e profissões, e a fronteira entre realidade e ficção vai se dissolvendo. No palco estão Henrique Fontes, Rafa Guedes e José Neto Barbosa, com Ian Medeiros como coberta, o coringa do elenco, pronto para entrar em qualquer papel. A lição que o teste ensina é cruel. Não basta ser nordestino, é preciso parecer ser, corresponder à expectativa de quem contrata. No processo, cada um descobre que a própria ideia que fazia de si também era um estereótipo.

Projeções de vídeo, celular, tablet, maquetes e miniaturas convivem, no palco, com a reperformance de cenas de Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha, e com registros que transitam da comédia ao teatro épico, da sátira à dança. Quitéria Kelly conduz esse hibridismo de linguagens que fez da montagem uma referência do teatro documentário brasileiro. O humor é a ferramenta de investigação. Cada quadro encena um lugar-comum, exagera, devolve a imagem ao público e pergunta de onde ela veio e a quem serve. A dramaturgia de Henrique Fontes e Pablo Capistrano se atualiza a cada temporada com o que o grupo registra nas viagens, e por isso a peça conversa com o presente. O trabalho rendeu o Prêmio Shell de melhor dramaturgia e o Cesgranrio de melhor espetáculo.

Espetáculo que estreou em 2017 utiliza projeções de vídeo, maquetes e miniaturas, performance de cenas de filme brasileiro e registros que vão da comédia ao teatro épico, da sátira à dança. Foto: Divulgação 

Natal, 2007. O Grupo Carmin estreava Pobres de Marré e firmava uma pesquisa sobre exclusão social urbana no Nordeste brasileiro. O coletivo foi fundado pelas atrizes Quitéria Kelly e Titina Medeiros, morta em janeiro deste ano. O nome do grupo vem do vermelho vivo e intenso do carmim. Henrique Fontes não assina a fundação, mas esteve lá desde a primeira obra. Ele escreveu e dirigiu Pobres de Marré e segue na formação atual como ator e dramaturgo. A trajetória soma O Auto do Menino Deus (2009), o experimento Olha a Água (2010), a partir de Brecht, a peça infantil Castelo de Lençóis (2011) e Por Que Paris? (2015), inspirada em Marguerite Duras. Com Jacy, montagem de 2012, o grupo iniciou a pesquisa de teatro documental que desembocaria nesta peça. Jacy entrou na lista dos dez melhores espetáculos do ano do jornal Estadão e circulou pelo país no Sesc Palco Giratório. O repertório do Carmin acumula mais de 500 apresentações para mais de 30 mil pessoas. Neste ano, o grupo estreou Gente de Classe, sátira sobre a classe média em colapso, também dirigida por Quitéria Kelly.

A tese que sustenta a dramaturgia vem do historiador paraibano Durval Muniz de Albuquerque Jr., consultor da montagem e autor de A Invenção do Nordeste e outras artes. Para Durval, o Nordeste não existia como região antes do início do século 20, quando intelectuais, relatórios sobre a seca, romances regionalistas, cinema e cordel costuraram um retrato único para nove estados muito diferentes, de Gilberto Freyre a Ariano Suassuna. A diretora resume o problema. A música, a poesia, a literatura, a dança, tudo que é feito artisticamente no Nordeste parece obrigado a carregar a linguagem da seca, do chão rachado, das cores ocres. O objetivo, diz o historiador, não é buscar a verdadeira representação da região, mas entender como essa ficção funciona e a quem serve. O estereótipo não descreve o Nordeste. Ele o produz, e produz também o lugar de quem fala sobre ele. Não por acaso, a peça foi concebida como resposta aos ataques xenófobos que nordestinos sofreram nas redes sociais durante as eleições presidenciais de 2014.

O estigma voltou ao centro na eleição deste ano. O Nordeste reúne nove estados e dezenas de milhões de eleitores e, nas últimas duas décadas, decidiu corridas presidenciais no país. Em 2022, Lula levou dois terços dos votos válidos da região, e essa vantagem assegurou sua vitória nacional. No primeiro turno de 4 de outubro, ele repetiu a vitória nos nove estados, com 63,77% dos válidos e 21,49 milhões de votos, 11,1 milhões a mais que Flávio Bolsonaro, que venceu em 15 estados e leva a disputa ao segundo turno. A margem, porém, encolheu. O bolsonarismo saltou de 26,97% para 30,85% dos votos nordestinos, e Lula perdeu cerca de 258 mil votos na região em relação a 2022. O mapa que pinta o Nordeste de um lado e o Sul de outro voltou a circular, e com ele o discurso (equivocado) de que o nordestino vota errado.

A Invenção do Nordeste mostra como funciona a máquina que fabrica regiões e inimigos. Foto: Divulgação

Vivemos um momento de avanço do fascismo, no Brasil e no mundo. O mecanismo é conhecido. Escolhe-se um inimigo, transforma-se um povo em estigma, converte-se diferença em ameaça. O nordestino já foi tratado como o brasileiro que estraga o país, o migrante que invade a cidade grande, o eleitor que não entende o próprio interesse. A história ensina que o pleito popular pode ser a porta de entrada do totalitarismo. O partido nazista se tornou a maior força da política alemã nas urnas, Hitler foi empossado chanceler dentro da legalidade, em 1933, e meses depois usou um crime, um decreto e uma lei para fechar o parlamento, eliminar adversários e concentrar todo o poder. A democracia alemã não foi derrubada de fora. Foi esvaziada por dentro, com votação, aplauso e instituição.

Ver A Invenção do Nordeste nesta semana, no Recife, é ver funcionar a máquina que fabrica regiões e inimigos. A montagem devolve ao público a possibilidade de recusar o Nordeste que nos foi imposto como insulto e reivindicar o que a região é de verdade, diversa, criativa, plural, decisiva. A peça tem lado. É o lado de quem cansou de ser estereótipo. O nome do candidato o espetáculo pode até não dizer. Mas esse nome grita em toda a peça. O voto é secreto, sabemos, mas reconhecemos quando ele é carmim. A última sessão acontece em 24 de outubro, véspera do segundo turno. Quem inventou o Nordeste já respondeu para quê. O Nordeste inventado vai às urnas. O Nordeste real decide o país.

Serviço

🎭 A Invenção do Nordeste 🎪 Grupo Carmin (RN), direção de Quitéria Kelly
📍 Caixa Cultural Recife, Avenida Alfredo Lisboa, 505, Bairro do Recife
🗓️ de 15 a 24 de outubro, quinta a sábado, às 19h30
🎟️ R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia-entrada), dois ingressos por CPF
🎁 sessão de abertura gratuita para clientes Caixa, em 15 de outubro, com retirada prévia
🤟 intérprete de Libras e bate-papo com o público aos sábados
⏳ 60 minutos
⭐ 14 anos
📞 (81) 3425-1915 Instagram @caixaculturarecife
🏛️ patrocínio da Caixa Econômica Federal

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A lama e a purpurina,
Livro do Grupo Vivencial
escrito por Marcio Bastos

Grupo Vivencial. Foto Gilberto Marcelino / Divulgação

Jornalista Marcio Bastos, autor do livro sobre o Vivencial. Foto: Gabriel Mesgo / Divulgação

O grupo que Guilherme Coelho fundou às margens de um mosteiro beneditino causou polêmica desde o início e, mais de cinquenta anos depois, ainda pulsa e influencia a cena pernambucana. Foi em 1974, quando ele, então noviço, dirigiu Vivencial I no galpão do Colégio de São Bento, em Olinda, para celebrar os dez anos de uma pastoral católica. A peça criticava a Igreja, o machismo e o racismo e defendia abertamente a diversidade sexual, algo que nenhum palco da época fazia. O público jovem lotou o salão, a repercussão envergonhou os anfitriões e, dias depois, a direção do mosteiro proibiu que a montagem seguisse em cartaz no lugar onde tinha acabado de estrear. Foi desse encerramento forçado que nasceu o Grupo de Teatro Vivencial, e a trajetória dos seus integrantes chega agora às livrarias em Lantejoulas no mangue, teatro e desbunde do Vivencial, de Márcio Bastos (Autêntica).

O Vivencial recrutou o seu elenco entre os jovens da Arma, a Associação de Rapazes e Moças do Amparo, grupo ligado à Arquidiocese de Olinda e Recife, do qual vários futuros integrantes já participavam. Coelho não chegou a ser monge e deixou o hábito nos anos seguintes, e o grupo, formado na maioria por gente dos bairros populares de Olinda e do Recife, acrescida de poucos estudantes e profissionais, transformou a falta de formação em método, a criação coletiva como aprendizado.

O livro integra a coleção Nossas Histórias, coordenada por Renan Quinalha, que declara no título o seu compromisso, resgatar marcos da resistência LGBTQI+ brasileira apagados pela ditadura e pelo esquecimento. Esse compromisso se cumpre em forma documental, verificável página a página. São 182 páginas, prólogo, quatro capítulos e epílogo, atravessadas por 112 notas de rodapé que citam recortes do Diario de Pernambuco, do Jornal do Commercio, do Diario da Noite e de veículos nacionais entre 1974 e 1984, além de documentos da hemeroteca da Biblioteca Nacional e do Arquivo Público. O miolo reproduz material primário raro, o manifesto do grupo, o Manifesto Quá Quá Quá, o manifesto de sete anos, panfletos e programas. 

A escrita de Bastos é feita com afeto declarado. A lama do Capibaribe e a purpurina dividiram o mesmo palco durante quase uma década, e é dessa convivência improvável que o autor extrai a sua matéria. O arquivo que ele articula veio em boa parte das mãos do próprio fundador, e as memórias que divergem, as que lembram o dinheiro de outro jeito, as que apontam hierarquias dentro da coletividade proclamada, ficaram nas margens. Henrique Celibi, o viveca mais desconfiado, costumava separar o perfume de uma época do seu cheiro verdadeiro. Este livro tem mais cheiro do que qualquer homenagem anterior, e nem por isso escapa inteiramente ao perfume, e é dessa tensão que a leitura mais honesta se faz.

Caetano Veloso no Vivencial com jaqueta com o nome de Gilberto Gil, em 1979. Foto: Paulinho Santos

Vivencial Diversiones. Acervo Suzana Costa

Os fatos que o livro organiza sustentam a história. Em plena ditadura, quando a participação de travestis no carnaval era proibida pela Polícia Federal em todo o país, medida documentada no terceiro capítulo e registrada pela imprensa de época, e quando um grupo autointitulado Comando de Caça aos Afeminados espancava dissidentes de gênero pelas ruas do Recife, episódio noticiado pelo Diario de Pernambuco em junho de 1970, aquele elenco de jovens da pastoral subiu em um galpão de colégio católico com uma peça que criticava a Igreja, o machismo e o racismo. A proposta, como resumiu o fundador, era direta.

“Em Vivencial I, nossa primeira montagem, a proposta era ‘seja você mesmo, busque seu eixo, saia de casa, construa, mude o mundo’.” (Guilherme Coelho)

Do galpão ao mangue foi uma década. Em 1978, as vivecas ergueram com as próprias mãos o Vivencial Diversiones, café-concerto de taipa numa comunidade de palafitas sem saneamento, que a imprensa local chamou de “a mais moderna casa noturna do Nordeste” e que recebeu Caetano Veloso de surpresa em maio de 1979. O método do livro aparece bem nessa costura entre época e presente. No capítulo 4, ao falar dos primeiros salários dos integrantes, o texto informa que cada um recebia “cerca de 1.200 cruzeiros por semana (algo em torno de 1.100 reais, ou 275 reais por apresentação, em valores de 2026)”. A conversão é o autor a trabalhar para o leitor de hoje, um recurso que atravessa o volume inteiro. Nele também está a engenharia pedagógica do grupo. Em muitos casos, conta Bastos, o desejo de fazer teatro era tão grande que integrantes que sabiam ler recitavam os textos até que os analfabetos do elenco conseguissem decorá-los. 

O alcance do resgate aparece nos episódios que o livro recupera. A narrativa acompanha Roberto de França, o Pernalonga, do carnaval de 1980, quando foi barrado por homofobia na escola de samba Preto Velho, até a morte em 2000, passando pela Aids e pelo ativismo contra o estigma junto ao Gestos. A biografia completa dele já tinha ganhado livro próprio de Bastos, Pernalonga, uma sinfonia inacabada (2023), e a diferença aqui é de enquadramento, na biografia ele é o sujeito central, no novo livro ele vira fio do coletivo, e a sua ação judicial contra Coelho, os conflitos financeiros e as saídas do elenco aparecem costurados à história do grupo, e não como episódio isolado. Mapeiam-se ainda a travesti Lolita e o bordão que virou chave da boemia do Bairro do Recife, os 13 filmes em Super-8 feitos com Jomard Muniz de Britto, a bailarina Ivonete Melo e a diáspora que abriu casas em Natal e Fortaleza.

Américo Barreto, Henrique Celibi e Pernalonga. Foto: Ana Farache / Divulgação

O livro não analisa os espetáculos do grupo, e não pretende disfarçar a posição de quem o escreveu. O material é narrativo, cronológico, movido por depoimentos, recortes de jornal e documentos, e o autor escolhe os adjetivos que o apresentam. Em suas declarações de lançamento, ele define o Vivencial como “uma das experiências artísticas mais radicais do teatro brasileiro do período”, “grupo vibrante e construído no respeito às diferenças” e “território de contestação e celebração da vida”. O leitor sabe desde a capa que leitura afetiva é o projeto, porque o livro não finge neutralidade.

A leitura analítica do coletivo está publicada em outro lugar. Rodrigo Dourado, professor de Teatro da UFPE e autor da dissertação Vivencial Diversiones, por uma cena transgressora, resume o grupo por outra chave, “o Vivencial era um espaço de gente pobre, preta, de travestis, do ‘povo da lama'”. As dissertações de Mateus Melo dos Santos (UFPE, 2018), sobre as masculinidades e hierarquias internas, e de Maria Eduarda Santos de Oliveira (UERJ, 2024), sobre as opressões vindas também do campo teatral e da esquerda brasileira, completam o quadro. O livro de Bastos cita as duas nas notas, e deixa a análise nelas.

Fora do livro, mas indispensável para o clima que ele reconstitui, está a autoimagem que os sobreviventes produziram sobre si mesmos. A postagem que Henrique Celibi, o órfão da Ilha do Maruim acolhido pelo grupo aos 14 anos, escreveu no Facebook depois da estreia de Puro Lixo, montagem-homenagem ao coletivo, dirigida por Antonio Cadengue e que o Satisfeita, Yolanda? reproduziu em 2017, resume essa visão sem nenhuma auréola.

“Nunca fomos anjos! Muito pelo contrário, não gostávamos das auréolas. Principalmente as feitas com arminhos. Gostávamos mesmo era de sermos demoníacas. Éramos terríveis, as vivecas! Tínhamos a consciência de que éramos nós as ‘Cinderelas’, lindas com o vestido de baile, mas, sem o sapatinho de cristal e sim, com os pés sujos da lama em que a sociedade insistia em afundar-se. (ainda insistem).” (Henrique Celibi)

O fim do grupo também está no livro, e sem maquiagem. É o que ocupa a última parte do capítulo 4, entre as seções A diáspora, A neblina e Para sempre vivecas (p. 145 a 176), com as cissões internas, as disputas financeiras e a ação judicial entre Pernalonga e Coelho narradas junto à reabertura temporária de 1982 e ao fechamento em agosto de 1983. O diagnóstico do fim, em voz do fundador, tinha sido dado antes, em entrevista de 2012.

“Não podia faltar céu para tanta estrela brilhar. Todos eram muito brilhantes, com muito ego. Cada um era uma entidade, todos tinham projetos, e nós demos corda para esses projetos. Sempre poli o ego de todo mundo. O Vivencial nasceu para brilhar.” (Guilherme Coelho)

Pernalonga, Luciana Luciene, Petrônio de Sena e Guilherme Coelho. Acervo Guilherme Coelho

O que o livro escolhe contar, e o que deixa para os outros, dizem muito sobre o tipo de livro que ele é. A base documental central foi cedida pelo próprio fundador, e algumas notas do volume o declaram, é Guilherme Coelho quem entregou para a pesquisa o panfleto da casa, o programa de Notícias tropicais e o manifesto de sete anos que compõem o miolo. O método, como Bastos define, é o da montagem de um quebra-cabeça, “com essa generosidade coletiva, vamos chegando a outras peças. Tenho certeza de que ainda há muito a ser encontrado”. Muitas memórias divergentes dos próprios vivecas, ficaram fora do registro impresso. O arquivo que o livro organiza segue, portanto, a versão do fundador, e essa é uma escolha de fonte que o próprio autor admite quando chama a pesquisa de sempre em construção.

O motivo de publicar agora, o autor também dá. “Me assusta e entristece perceber como, hoje, existe um discurso que minimiza ou mesmo nega as violências da ditadura militar”, disse Bastos na divulgação do lançamento, para emendar a lição do objeto. “Nossa alegria, afinal, é política, e o Vivencial entendeu isso desde o primeiro espetáculo.” A herança que o livro documenta segue em cartaz. Jeison Wallace, que transformou a peça de Celibi no fenômeno Cinderela, a história que sua mãe não contou, em cartaz há 35 anos, diz ao autor como chegou lá. “Jeison Wallace me contou que assistiu a um espetáculo dirigido por Guilherme Coelho e decidiu ser artista. Ou seja, um dos maiores fenômenos do teatro pernambucano é filha direta do Vivencial”. Entre o mosteiro que proibiu a peça e as influências contemporâneas, é dessa linhagem que o livro cuida, e é por ela que o grupo, mais de cinquenta anos depois, ainda pulsa.

SERVIÇO

 

Lançamento de Lantejoulas no mangue, teatro e desbunde do Vivencial, de Márcio Bastos, com bate-papo entre o autor e o editor Schneider Carpeggiani
Quando, hoje, sábado (10), às 14h
Onde, Museu de Arte Contemporânea de Pernambuco (MAC-PE), Rua Treze de Maio, 149, Carmo, Olinda
Entrada, livre
Preço do livro, físico R$ 69,80, e-book R$ 48,90, à venda em livrarias e no site da Autêntica

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Manifesto da dança apoia Lula
e cobra políticas de Estado para a arte

Documento do Fórum Nacional de Dança já reúne centenas de assinaturas e apresenta 19 propostas ao Ministério da Cultura. Na foto de Martha Regina, o Grupo Experimental, do Recife

Defender a democracia, apoiar a continuidade e cobrar avanços são, para o manifesto Por uma nova política para a dança no próximo governo Lula, posições que caminham juntas. Articulado pelo Fórum Nacional de Dança e assinado por pessoas, grupos e coletivos do setor, o documento declara apoio à reeleição do presidente e, no mesmo movimento, apresenta 19 propostas de políticas e ações para a pasta no próximo mandato.

O texto reconhece o governo como fundamental para a manutenção da democracia no país, mas sustenta que reconhecer não significa silenciar. “É também por acreditar nela que cobramos, confrontamos e insistimos”, afirma o manifesto.

A crítica central recai sobre o Ministério da Cultura na terceira gestão. O documento reconhece a reconstrução das políticas culturais praticamente destruídas no governo anterior, mas alerta que reconstrução não pode ser confundida com complacência. O MINC precisa ser cobrado, segundo o texto, por aquilo que ainda não fez, por aquilo que se contentou em não ter feito e por se autoelogiar pelo pouco que fez.

Segundo o Manifesto, faltaram nesta gestão programas convincentes, estruturantes e permanentes para os trabalhadores das artes. O orçamento destinado diretamente ao setor continua insuficiente, e os editais, embora necessários, não constituem políticas públicas de Estado. Isoladamente, não garantem continuidade, pesquisa, circulação, manutenção de companhias nem condições dignas de trabalho.

O documento sustenta ainda que a produção de arte no Brasil não é plenamente entendida como trabalho. O artista é um trabalhador que produz bens imateriais essenciais ao país, como pensamento, memória, conhecimento, imaginação e crítica, e pouco se produziu de concreto para garantir condições permanentes a esses profissionais. O texto critica também a opção de muitos editais por critérios quantitativos, sociais e burocráticos em detrimento da potência estética, da pesquisa e da invenção. Relevância social e qualidade artística não são incompatíveis, aponta o texto.

Os signatários pedem que se pare de romantizar a própria cultura. Para o manifesto, a cultura brasileira também cria e reproduz preconceitos, desigualdades e violências, enquanto a arte tem a potência de confrontar e revelar o que ela tenta esconder. Uma das grandes contradições do ministério atual, aponta o documento, é que a arte continua sendo invisibilizada pela própria cultura. “A Cultura não precisa pedir licença para existir. A Arte também não”, diz o texto, que propõe renomear a pasta como Ministério da Arte e Cultura.

Relevância social e qualidade artística não são incompatíveis, aponta o documento do FND. Foto: Divulgação 

Lançado pelo Fórum Nacional de Dança, o manifesto reunia centenas de assinaturas até esta quarta-feira (30), entre pessoas, coletivos, grupos e companhias e organizações e instituições. Estão entre os nomes coreógrafos como Alejandro Ahmed, diretor do Balé da Cidade de São Paulo, Henrique Rodovalho, da Quasar Cia de Dança, e Gilsamara Moura, da Escola de Dança da UFBA, além de entidades como os sindicatos dos profissionais de dança de São Paulo e do Rio de Janeiro. De Pernambuco, assinam o Grupo Grial de Dança, o Grupo Experimental, a Associação de Artes Cênicas de Salgueiro.

Entre as 19 propostas estão a implementação, a regulamentação e a fiscalização da Lei da Dança (15.396/2026), sancionada em 29 de abril de 2026, no Dia Internacional da Dança, após luta liderada pelo Fórum Nacional de Dança com apoio da Frente Parlamentar em Defesa da Dança, presidida pelo deputado federal Carlos Zarattini. O documento pede ainda a aprovação do PLP 190/2015, que garante aposentadoria especial aos 25 anos de contribuição, e do PLP 47/2022, que permite o registro dos profissionais da dança como microempreendedores individuais.

No campo do financiamento, o manifesto defende a destinação de 2% do orçamento geral da União, 1,5% dos estados e 1% dos municípios para a cultura e as artes, com a aprovação da PEC 150/2003 e garantia de que os recursos não fiquem subordinados ao arcabouço fiscal. As propostas incluem concurso público federal, criação de um Fundo Específico da Dança no âmbito do Plano Nacional das Artes, cursos técnicos nos Institutos Federais, um Centro Nacional de Memória da Dança Brasileira, programas permanentes de circulação e internacionalização, um Prêmio Nacional da Dança, mecanismos para democratizar os recursos da Lei Rouanet e sedes regionais da Funarte em todas as unidades da Federação.

O documento faz um paralelo para situar o momento do país. Em 2026, o Brasil saiu do Mapa da Fome, lembra o texto, mas a fome por arte e por uma cultura emancipadora ainda se mantém em níveis alarmantes.

“Não queremos apenas editais. Queremos políticas públicas estruturantes de Estado”, resume o manifesto. Para os signatários, o apoio à democracia e à reeleição de Lula é justamente o que torna a cobrança necessária e urgente. O próximo governo, conclui o documento, precisará finalmente transformar a arte e a cultura libertadora em política de Estado permanente.

Leia o manifesto completo e confira a lista de assinaturas
aqui.

📌 Serviço

Manifesto Por uma nova política para a dança no próximo governo Lula
Articulação do Fórum Nacional de Dança
Leia, conheça as propostas e assine em forms.gle/ohZTFTcFzS8G4s5q7

📋 Resumo dos 19 itens

  • Implementação, regulamentação e fiscalização da Lei da Dança (15.396/2026)
  • Aposentadoria especial aos 25 anos de contribuição (PLP 190/2015)
  • MEI da Dança (PLP 47/2022)
  • 2% do orçamento da União, 1,5% dos estados e 1% dos municípios para a Cultura e as Artes, com aprovação da PEC 150/2003
  • Concurso público federal e estruturação das carreiras de Arte e Cultura
  • Fundo Específico da Dança no Plano Nacional das Artes
  • Cursos técnicos de Dança nos Institutos Federais
  • Ampliação da disciplina Dança nas escolas públicas de tempo integral
  • Centro Nacional de Memória da Dança Brasileira
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Grupo Experimental, do Recife

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Aparecida abre os arquivos da violência
e coloca as sobreviventes em cena

Aparecida com Gheuza integra o projeto Monólogas na Fabulosa Arte Colab, em Piedade. Foto: Eric Valença

Quatro mulheres são mortas por dia no Brasil em crimes de feminicídio. O cálculo acompanha o recorde registrado em 2025, quando o país contabilizou 1.571 vítimas, alta de 4% em relação ao ano anterior, segundo o 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. O dado ganha peso quando lido junto com a tendência geral. As mortes violentas no país caíram a patamares menores desde 2012, enquanto os feminicídios seguiram subindo.

Aparecida, solo com Gheuza em cartaz nos dias 1º e 2 de outubro, na Fabulosa Arte Colab, em Piedade, Jaboatão dos Guararapes, parte desse cenário para fazer o oposto da estatística. A montagem recolhe os relatos de quem sobreviveu às agressões, registrados em prontuários da Delegacia da Mulher e de unidades de acolhimento, pesquisados pela atriz com o diretor e dramaturgo Eric Valença. 

Em cena, Gheuza interpreta uma investigadora policial que recebe os casos de violência contra mulheres em seu departamento. A personagem reconstrói histórias a partir dos relatos colhidos na pesquisa e percorre os estágios do abuso, da primeira ameaça aos desdobramentos das investigações. O solo dura entre 50 e 55 minutos, em narração contínua, e foi concebido pela atriz como um golpe único e certeiro, capaz de despertar a plateia para o tema. A atriz prefere chamar a montagem de performance-protesto, algo que sai à rua como um megafone.

A narrativa da investigadora se mescla a analogias visuais e estéticas que percorrem a figura da santa padroeira do Brasil até sua representação na umbanda, onde ela é Oxum. A ponte entre os dois universos se dá pelo viés da mulher negra. Ao pensar na questão racial, a montagem buscou associar a personagem ao símbolo do país, a santa negra encontrada no fundo do rio. A trilha original, do percussionista Fábio Gomes, inclui a oração de Nossa Senhora Aparecida em iorubá e costura as matrizes católica e africana dessa figura.

Vivemos um momento com recorde de feminicídios no Brasil e em Pernambuco, lembra a peça. Foto: Divulgação

A personagem também fala dos entraves do próprio trabalho, entre eles a falta de sustentação da denúncia por parte da própria vítima, situação que a atriz classifica como muito comum. Uma antepassada de Aparecida sofreu violência doméstica, e essa memória ajuda a explicar sua escolha pela carreira policial.

As vozes se cruzam no diálogo, de várias mulheres que passam por situações cotidianamente. A versão solo retoma uma personagem que integrou Trilogia do Feminicídio, dirigida por Valença, em 2019.

A urgência do tema aparece nos indicadores. O Brasil completou 20 anos da Lei Maria da Penha em 2026 e uma década da tipificação do feminicídio como crime, com os registros em patamar inédito. O Anuário registrou que 59,4% das vítimas foram mortas pelo parceiro ou pelo ex-companheiro. Segundo levantamento da Agência Patrícia Galvão divulgado a partir dos dados do mesmo Anuário, ao menos 148 mulheres foram assassinadas mesmo amparadas por medida protetiva de urgência.

Um dos gargalos apontados por pesquisadoras está na nomeação do crime. Segundo a educadora do SOS Corpo Instituto Feminista para a Democracia Analba Brazão Teixeira, em entrevista publicada pelo CFemea em 27 de abril de 2026, há subnotificação nos registros da segurança pública, e casos que deveriam ser considerados feminicídios não recebem esse enquadramento. “A violência contra as mulheres é estrutural. E o feminicídio é o resultado do processo de violência de gênero”, afirma a pesquisadora. Em entrevista ao portal Brasil de Fato publicada em 7 de março de 2026, ela estimou que apenas 30% dos casos de violência letal contra a mulher em Pernambuco chegam a ser enquadrados como feminicídio. No Brasil, o percentual é de 40%. Nomear a violência faz parte do combate a ela, e a peça atua nesse terreno ao tirar os relatos do arquivo e colocá-los diante do público.

A montagem transforma relatos colhidos em prontuários da Delegacia da Mulher em cena. Foto: Divulgação

O teatro transforma documento em presença compartilhada, com a intensidade que uma manchete raramente oferece. Aparecida conta com o bate-papo após as sessões. As apresentações integram o projeto Monólogas, que reúne cinco cenas protagonizadas por mulheres.

A temporada acontece em um estado onde a violência de gênero avançou. Pernambuco registrou 88 feminicídios em 2025, contra 76 em 2024, segundo os dados do Painel de Indicadores Criminais da Secretaria de Defesa Social reproduzidos pela CBN Recife. O
G1 apontou o maior quantitativo em oito anos, o equivalente a um caso a cada quatro dias, ritmo resumido pelo Marco Zero. Recife liderou os registros, com 15 ocorrências, e Jaboatão dos Guararapes, cidade que recebe a montagem, aparece em seguida no painel.

As contrapartidas sociais de Aparecida começam antes das sessões abertas ao público. Nesta quarta-feira, 30 de setembro, a montagem é apresentada a estudantes da rede pública estadual de ensino, em sessão dedicada. A agenda inclui ainda oficinas de teatro para mulheres a partir dos 18 anos, ministradas por Gheuza, com foco na percepção da voz em cena e na reflexão crítica sobre textos e contextos teatrais. Uma oficina acontece na Fabulosa Arte Colab e as outras duas em Brasília e Ceilândia, no Distrito Federal, onde o espetáculo faz três apresentações no fim de outubro. O projeto tem apoio da Secretaria de Cultura de Pernambuco, por meio do edital Multilinguagens da Política Nacional Aldir Blanc.

Gheuza é atriz, produtora cultural e educadora física formada pela Universidade de Pernambuco, com formação de atriz pelo Curso Técnico da Fundação Joaquim Nabuco. Fundou a Fabulosa Arte Colab com a atriz e produtora Cira Ramos, casa que oferece atividades formativas em Artes e atende crianças, adolescentes e adultos em situação de vulnerabilidade social. Sua trajetória reúne o teatro de Marilyn, Marilyn, de João Falcão, a Paixão de Cristo de Nova Jerusalém e Sobrados e Mocambos, com direção de Antonio Cadengue, e o audiovisual de Lispectorante, de Renata Pinheiro, Dente, de Rita Luna, Rio Doce, de Fellipe Fernandes, das séries Chabadabadá, dirigida por Tuca Siqueira e Júlia Moraes (Canal Brasil, 2024), e Amorteamo, dirigida por Flávia Lacerda e Isabella Teixeira (Rede Globo, 2015), e do curta Banho de Choque, de Cíntia Lima, estreado no 59º Festival de Brasília.

 

📍 Serviço

Espetáculo Aparecida, solo com Gheuza, no projeto Monólogas
Onde: Fabulosa Arte Colab, Rua Silvia Ferreira, 110, Piedade, Jaboatão dos Guararapes
Quando: Quinta, 1º, e sexta, 2 de outubro, às 20h
Ingressos: R$ 20, na bilheteria e pelo Sympla
Acessibilidade Intérprete de Libras e som da DJ Rafaella Rafael na sessão de sexta
Classificação: 14 anos
Mais informações: @fabulosaartecolab

🎬 Ficha técnica

Atuação e dramaturgia: Gheuza
Dramaturgia, direção e produção: Eric Valença
Trilha sonora original: Fábio Gomes
Criação de luz: Luciana Raposo
Execução de luz: Sueides Leal (Pipia)
Figurino: Carol Monteiro
Produção executiva: Ewerton Marinho
Comunicação, redes sociais e identidade visual: Ana Paula Paz
Imprensa: Ana Nogueira
Apoio Secretaria de Cultura de Pernambuco: pelo edital Multilinguagens da PNAB Pernambuco

 

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