Com tantas coisas medonhas acontecendo no mundo, e do nosso lado, a busca pela arte pode ser muita coisa: encontrar a beleza, dar sentido ao que anda disperso, sentir felicidade. No sábado, 22 de agosto, no Teatro do Parque, no Recife, foi tudo isso ao mesmo tempo, no espetáculo Acaso Casa, com Mariene de Castro e Almério. Por duas horas, o mundo lá fora ficou suspenso. Uma viagem que cruza muitas emoções, saudades, resistências, esperanças e talentos gigantes.
Para saber mais dessa viagem, é preciso voltar no tempo. Mariene de Castro e Almério se conheceram numa festa, no Rio, na casa do produtor Zé Maurício Machline, criador do Prêmio da Música Brasileira. A reunião etílico-musical seguiu noite adentro, improvisando canções que cada um levou do seu território. Ela, de Salvador, da Bahia, das matrizes afro-brasileiras. Ele, do agreste pernambucano, dos aboios do avô e das bandas de pífanos de Caruaru, e de todas as sonoridades que encontrou depois, até achar a sua turma. E ali, entre uma canção e outra, descobriram que havia entre eles uma liga, de amizade, de afinidade, sei lá o quê. Uma afetividade para durar.
Dessa afetividade nasceu um espetáculo, e ele ganhou um nome: Acaso Casa. As duas palavras parecem se contradizer. O acaso é o que escapa à casa, o que acontece fora dela, o que não tem endereço. Mas talvez aí more a descoberta. Revelou, sobretudo, que a casa de um podia ser atravessada pela casa do outro. Mariene e Almério descobriram que já partilhavam uma mesma geografia interior. O sertão, o sagrado, a saudade, a terra.
Essa geografia comum virou um projeto, e o projeto ganhou corpo e data. Em 2017, Acaso Casa estreou num show no Rio de Janeiro. Em 2019, o CD e o DVD foram gravados na Casa do Choro, no Rio, lançados pela Biscoito Fino, e indicados ao Grammy Latino de 2020 na categoria Melhor Álbum de Música de Raízes em Língua Portuguesa. O show foi pensado para circular. Os palcos de largada seriam Recife e Salvador, as cidades dos artistas. Mas então tudo fechou. Por uma pandemia.
Nesse intervalo, Almério lançou Tudo é amor, Almério canta Cazuza, Almério e Martins e Nesse exato momento, este último com participações de Maria Bethânia e Zélia Duncan. Mariene lançou Maria da Canção. As vozes amadureceram. E o repertório cresceu. Canções como Quero Você e Antes do Mundo Acabar entraram no show.
O espetáculo que chegou ao Recife neste agosto de 2026 carrega dentro de si o tempo que passou. A interrupção, a perda, a espera, o reencontro. Há algo de uma mágica temporal de camadas nisso tudo. E o público que lota o Teatro do Parque também passou pela pandemia, também perdeu, também sobreviveu. O que se dá no palco é um encontro vibrante. E esse encontro começa nas vozes.
A voz de Mariene é grave, um timbre raro… Dizendo assim, já me vejo entrando na cena de Almério, me fazendo espelho na mão do artista, quando ele canta Salão de Beleza pra baiana. Uma liberdade minha, uma projeção embalada só pela música. De Castro carrega o candomblé, o samba de roda, o jongo, a Bahia, o Recôncavo. Carrega também a própria história, da menina que dançava balé aos cinco anos no Teatro Castro Alves à cantora que, em 2016, embalou a cerimônia de encerramento dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro.
A voz de Almério se insurge contra o estereótipo. Canta de tudo, forró, MPB, e o que vier, mas não se deixa enquadrar em moldura alguma. Canta nas frestas, entre os gêneros, e gosta de brincar com essa liberdade.
No show, Mariene disse que ele é o maior cantor desse país. Tremendo elogio, dito de quem não precisa elogiar ninguém. Ele ficou tão surpreso que só respondeu algumas músicas depois, devolvendo que ela é uma das melhores cantoras do mundo.
Duas vozes protagonistas que se reconhecem. No Teatro do Parque, o que se viu foi o cuidado de cada um com o outro. A elegância, o respeito em pequenos gestos, o carinho, o jeito cavalheiro de Almério. O show foi solar, de muita generosidade, de atmosfera intimista, de solos e duetos.
Almério faz de cada canção uma cena. Apresenta personas, dança, e encanta. Mariene mobiliza com a voz e com a força dos gestos, da presença. Juntos, são corpos que se potencializam. Duas subjetividades inteiras.
As canções que sustentam o espetáculo formam um mapa. O repertório de Acaso Casa é uma cartografia afetiva, desenhada a partir de duas memórias que se descobrem coincidentes. As canções de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, Pau de Arara, Estrada de Canindé, Respeita Januário, estão ali. O mapa é grande, e um dos seus territórios é o sagrado.
Nesse campo, Chico César entra. Com duas canções que formam um pequeno ato de subversão. Perto Demais de Deus vem primeiro com Almério. “Tem gente que não deixa Deus em paz / Essa gente é o diabo e faz da vida de Deus um inferno.” Inverte os papéis. Não é o diabo que ameaça Deus, mas pessoas, os seres humanos que não O largam, que O tratam como empregado, que transformam a vida divina em inferno. E Deus Me Proteja, em dueto. “Deus me proteja de mim / E da maldade de gente boa / Da bondade da pessoa ruim.” Uma prece que ninguém é tão bonzinho assim.
Sinhá, de Chico Buarque e João Bosco, interpretada por Mariene é um momento duro, direto. A canção traduz as misérias, as barbáries da escravatura em muitos níveis. Um escravizado jura que nunca viu a moça branca, enquanto o tronco e a mutilação o esperam. É uma ferida exposta, cantada sem desvio.
E é exatamente depois dela que o teatro vira macumba. Mariene vem com Bembé. Canta Ponto de Nanã. Divide Canto de Ossanha com Almério. Eu nem me lembro mais da sequência, um bloco muito forte, que não pede licença nem explicação. Depois de encarar a barbárie, a dor se transforma em culto, em celebração, em pertencimento.
O repertório envereda por coisas que podem ser escorregadias, o amor, a saudade, a tristeza. Espumas ao Vento, de Accioly Neto, um grande sucesso popular. E Choro, de Fábio Jr., consagrada pela banda Limão com Mel, a mesma que destacou Anjo Querubim de Petrúcio Amorim. Almério canta Choro a maior parte sentado, e troca “daquela mulher” por “daquele rapaz”, num gesto pequeno e notável.
A iluminação do espetáculo, assinada por Luciana Raposo, é pensada como dramaturgia, como elemento narrativo que participa da emoção do espetáculo. Os músicos aquecem e dão sabor da cozinha. Em cena, a direção musical de Webster Santos, que também toca os violões, com Rubem França no violão de 7 cordas, Geo Barbosa na sanfona e Fábio Cunha e Luan Badaró nas percussões.
O público conhece os artistas e suas canções. Cantam junto os refrões que o nordeste inteiro conhece, faz o silêncio cúmplice em outras músicas e se instala na plateia a comunhão.
Ao anunciar Antes do Mundo Acabar, de Zélia Duncan e Christiaan Oyens, Almério diz que a compositora foi uma das maiores incentivadoras pelo retomada do show Acaso Casa. A música, escrita para o pai de Zélia que estava doente, faz um apelo ao presente, ao agora. “Antes do mundo acabar, eu quero ver você.” Posta num espetáculo que sobreviveu a uma pandemia, se torna mais que amorosa, anuncia as urgências do convívio.
É um bonito show e cada um deve levar para sua própria casa algum presente musical.





















