Não haverá Paixão de Cristo do Recife em 2026. A pausa estratégica da temporada deste ano comprova o que nossa crítica (LEIA AQUI) já apontava como inadiável: era urgente um freio de arrumação e ele veio em boa hora. Após 27 anos de realização, a Associação dos Produtores de Artes Cênicas de Pernambuco (Apacepe) decidiu suspender a encenação para promover uma reestruturação artística e técnica, uma necessidade já apontada por nossa análise especializada, vinda de quem acompanha de perto e critica o teatro pernambucano e brasileiro há anos.
A história da Paixão de Cristo do Recife é marcada por uma trajetória gloriosa junto ao público e desafios contínuos de produção. Criada em 1997 após José Pimentel deixar o posto de ator e diretor da Paixão de Cristo de Nova Jerusalém, a montagem nasceu sob a visão e liderança do icônico artista, que dedicou mais de quatro décadas de sua vida à interpretação de Jesus Cristo. Nos primeiros cinco anos, o espetáculo foi realizado no Estádio do Arruda e, a partir de 2002, migrou para a Praça do Marco Zero, onde se consolidou como um dos maiores e mais impactantes espetáculos teatrais a céu aberto do Nordeste, com apenas um único intervalo em 2006, quando foi produzida no Forte do Brum. Durante as duas décadas sob a batuta de Pimentel, eleito Patrimônio Vivo de Pernambuco em julho de 2017, a Paixão ia além do teatro, tornando-se um verdadeiro símbolo da cultura pernambucana e um polo de atração para o turismo religioso nacional durante a Semana Santa.
A morte de José Pimentel em agosto de 2018, no entanto, marcou o fim de uma era, deflagrando um período de incertezas e profundas transformações. Em 2018, pela primeira vez, a Apacepe não esteve à frente da produção, gerando disputas sobre os direitos autorais e a direção artística do espetáculo entre os herdeiros legais de Pimentel e os produtores remanescentes. Em 2019, a edição marcou o retorno da Apacepe e a estreia de uma nova montagem da Paixão de Cristo, batizada de Jesus, a Luz do Mundo. Com roteiro, montagem e elenco repaginados, o espetáculo apresentou 22 cenas, algumas inéditas no local, como a Anunciação e passagens da infância de Jesus. Sob a direção e roteiro de Carlos Carvalho, a produção contou com Bruno Garcia no papel de Jesus e Germano Haiut interpretando o diabo, além de 43 atores, 140 figurantes e uma equipe técnica de 20 profissionais, incluindo figurinos de Manoel Carlos, cenários de Célio Pontes, iluminação de Eron Villar e trilha sonora do maestro José Renato.

José Pimentel interpretou o papel de Cristo por mais de quatro décadas. Foto: Wellington Dantas Divulgação
A pandemia de Covid-19 impôs um novo e drástico obstáculo, interrompendo as apresentações presenciais entre 2020 e 2021. Em 2022, o espetáculo chegou ao público de maneira especial: na tela grande, com a adaptação cinematográfica Paixão de Cristo do Recife: Jesus, A Luz do Mundo – O Filme“, com Angélica Zenith como Maria e Domingos Júnior como Jesus, tendo pré-estreia em janeiro no Teatro do Parque e disponibilização no YouTube. A edição de 2023, viu a Paixão de Cristo do Recife: Jesus, A Luz do Mundo voltar a ser encenada ao vivo, pela primeira vez em um teatro, no Teatro Luiz Mendonça, com uma proposta que buscou desmitificar o Cristo eurocentrado e trouxe Asaías Rodrigues no papel de Jesus. Em 2024, a Paixão de Cristo do Recife retornou ao Marco Zero, buscando reencontrar seu público e sua grandiosidade. Em 2025, manteve-se no Marco Zero, com Asaías Rodrigues (Zaza) como Jesus e Brenda Ligia como Maria.
Foi nesse cenário, que nossa análise no Satisfeita, Yolanda? sobre a encenação de 2025 já levantava sérios questionamentos. No artigo A tradição desencantada, minha percepção como crítica especializada sobre o espetáculo foi de “pesar e perplexidade”, dada a dificuldade em discernir o sentido das inovações e a insuficiência dos recursos técnicos. Apontamos para um nítido “descompasso entre a rica tradição histórica da narrativa e a tentativa de tradução contemporânea, marcada por uma execução aquém do ideal”.
Os problemas eram diversos e comprometiam a experiência do público: fragilidades técnicas evidentes na iluminação e uma cenografia “simplória”; conceitos contraditórios nos figurinos, que misturavam referências históricas e elementos contemporâneos, causando estranheza e “comprometendo a força poética do espetáculo”; abordagens questionáveis, como a transformação do Diabo em personagem feminina, que, em vez de subverter paradigmas, parecia “reafirmar uma posição patriarcal”; e um discurso superficial na dramaturgia, que tentava abordar temas sociais, como a violência policial, de forma “fácil”, sem a profundidade que esses assuntos exigem. Em suma, recebei a a 27ª edição como um “espetáculo morno” que não conseguiu “envolver o público como noutras edições”, gerando “apatia e o desencanto” – um diagnóstico que, agora, ressoa com a decisão de pausa da produção.

Cena da peça no Marco zero, com Asaías Rodrigues (Zaza) e Calos Lira. Foto: Acervo Paixão de Cristo do Recife

Cena com Normando Roberto Santos, Albemar Araújo, Asaías Rodrigues. Foto: Acervo Paixão de Cristo do Recife
A Paixão de Cristo do Recife não é um evento isolado, mas parte de um rico panorama nacional de espetáculos de inspiração religiosa ou bíblica. O Brasil se destaca mundialmente por suas encenações, como a grandiosidade da Paixão de Cristo de Nova Jerusalém, em Fazenda Nova (PE) – a mesma de onde José Pimentel saiu para criar a versão recifense – considerada a maior ao ar livre do mundo, ou a tradição centenária de Pirenópolis (GO). Em Pernambuco, essa tradição é especialmente forte, com montagens de todos os tipos pululando pelo estado: escolares, comunitárias, de grupos, de bairros, de cidades, criando um verdadeiro fenômeno cultural. Diante dessa profusão de espetáculos, o Governo de Pernambuco oferece edital com o projeto Pernambuco das Paixões, mas que consegue apoiar apenas algumas poucas produções diante da quantidade expressiva de montagens que surgem naturalmente no território pernambucano. Inserida nesse contexto efervescente, a Paixão do Recife, apesar de seus percalços, sempre ocupou um lugar de destaque, competindo e dialogando com outras produções de grande porte.
Mas a edição de 2025 serviu como um choque de realidade. A encenação apresentou fragilidades evidentes que não passaram despercebidas nem pelo público, nem pela crítica especializada, nem pela própria produção. Reconhecendo essa situação, a decisão de não realizar a Paixão de Cristo do Recife em 2026, a que seria sua 28ª edição, foi formalizada pela Associação dos Produtores de Artes Cênicas de Pernambuco (Apacepe) como uma “pausa estratégica” para profunda reestruturação.
“Essa decisão não nasce da desistência,
mas da consciência de que um espetáculo
desse porte precisa evoluir continuamente”
Paulo de Castro
Paulo de Castro, produtor-geral do espetáculo e diretor da Apacepe, é categórico ao afirmar que a medida é um ato de responsabilidade e visão de futuro. “Essa decisão não nasce da fragilidade, mas da força. Não nasce da desistência, mas da consciência de que um espetáculo desse porte precisa evoluir continuamente”, destaca a Apacepe em nota oficial. Paulo de Castro reforça a ideia: “Fazer essa paixão esse ano seria sacrificar para sempre e isso seria uma loucura. Temos agora um tempo bom para fazê-la em 2027 com as mudanças que estamos planejando.”
A Apacepe já comunicou a decisão ao governo de Pernambuco e à prefeitura do Recife, parceiros institucionais. Segundo Castro, a principal motivação não é financeira, mas sim a busca incessante pela qualidade. “O público não merece uma coisa ruim. A primeira função do artista, aliás, é a qualidade. Estamos trabalhando esses aspectos para voltarmos muito mais fortes em 2027”, explica. Ele ressalta que, embora haja apoio, “a gente já chegou sem a menor possibilidade de fazer, porque não tem tempo hábil de fazer cenário, figurino, enfim, as mudanças que se fazem necessárias.” O objetivo é claro: “texto, musicalidade, efeitos sonoros, efeitos especiais, um novo figurino e uma luz potente.”
A expectativa da produção é retornar em 2027 com uma estrutura renovada, elevando o padrão artístico e oferecendo melhores condições para todos os envolvidos, desde a equipe até o público. “A gente não só vai conseguir os resultados que queremos, como também vamos fazer um lindo espetáculo para a população. Porque a Paixão de Cristo, a gente já denominou um tempo atrás, é uma paixão do povo para o povo”, conclui Castro.



















