O palco entre o permitido e o proibido:
os anos 1960 do teatro no Recife
Livro de Leidson Ferraz
Por Ivana Moura

Pesquisa de Leidson Ferraz, com incentivo do Funcultura, reconstrói uma década em que o strip-tease convivia com a censura, a crítica arrasava peças sem pudor e o picante fazia a sua própria política. Foto: Fábio Anjos

Toda Donzela Tem um Pai Que é Uma Fera, 1964, com Barreto Júnior no papel de Porfírio, um velho conquistador, falso celibatário, que procura os amores de uma jovem, foi apresentado no Teatro de Santa Isabel, Foto: Acervo Projeto Memórias da Cena Pernambucana 

Teatro Marrocos, com Luiz Lima. Foto: Divulgação

O Recife que entrou em 1960 era uma cidade em plena inauguração de si mesma. Em 1º de janeiro, Miguel Arraes tomava posse na Prefeitura; em abril, nascia Brasília; em maio, numa sexta-feira 13, abria na Avenida Conde da Boa Vista, nº 629, o primeiro Teatro de Arena do Nordeste, o terceiro do país, com ar-condicionado Westinghouse e reserva de cadeiras por telefone, luxos para a época. Em junho, a televisão chegava primeiro pelo Canal 6 da Rádio Clube, dias depois pelo Canal 2 do Jornal do Commercio, pronta para disputar com o palco atores, técnicos e plateias. E na Praça da República, a poucos passos do Palácio do Campo das Princesas, sede do governo estadual, e do Teatro de Santa Isabel, o Teatro Marrocos anunciava “muita pimenta, pouca roupa e muito humor”. O Marrocos, porém, não nascera ali: criado em 1954 pelo humorista Barreto Júnior como um barracão de madeira de 400 lugares na Avenida Dantas Barreto, fora derrubado em 1958 para o alargamento da via e reconstruído na Praça da República, onde se tornara no período, talvez, o único teatro de strip-tease do Brasil, com os ingressos mais caros nas primeiras filas, o “gargarejo”, de onde se via de perto as vedetes.

É esse território que o jornalista e pesquisador Leidson Ferraz, doutor em Artes Cênicas pela UNIRIO e atualmente em pós-doutorado na UFSJ, reconstitui ano a ano no livro Do Picante à Política: o teatro no Recife dos anos 1960, mergulhando em milhares de jornais, periódicos, fotografias raras e programas de espetáculo. A pesquisa começou em 2024 e levou mais de dois anos. O que o autor mais insiste em destacar é a pluralidade da cena teatral no Recife: “A gente sempre teve uma diversidade enorme de produções”, diz, ao recusar a ideia de que essa variedade seria uma marca exclusiva dos anos 1960.

O que a década teve de específico, segundo o Leidson, foi uma dualidade: a convivência entre o que podia e o que não podia chegar ao palco. “Eu cito vários textos que não puderam vir à cena, e ao mesmo tempo toda a polêmica com esse teatro picante, esse teatro rebolado. Se pensar na ideia de espírito do tempo, fica como um espírito contraditório”. O livro documenta essa contradição em casos concretos. Um Santo Homem, texto de Otto Prado, ficou proibido de 1968 a 1972, apesar de sucessivos recursos. Aconteceu em Paris, espetáculo levado por Hamilton Fernandes, esperou meses pelo parecer da censura já centralizada em Brasília. Em 1963, O Homem dos Chifres de Ouro, comédia apimentada de Ítalo Cúrcio, empresário carioca que levava suas companhias ao Marrocos, saiu da mão do censor rebatizada O Homem da “Testa” de Ouro. No fim da década, em 1969, De Bocage a Nelson Rodrigues, espetáculo erótico do grupo carioca Mini-Teatro da Guanabara, provocou escândalo moral a ponto de o vereador Wandenkolk Wanderley tentar censurá-lo, em meio a debate sobre seus méritos artísticos.

Antes de chegarmos ao fim da década, porém, vale voltar a um dos momentos em que o palco respondeu à censura com mais firmeza. Em outubro de 1961, o Teatro de Arena de São Paulo trouxe ao Santa Isabel Revolução na América do Sul, de Augusto Boal, com direção de José Renato e figurinos de Ded Bourbonnais. A peça chegava premiada pela Comissão de Teatro de São Paulo, recomendada pela Ação Católica Nacional, depois de cinco meses de temporada no Rio e seis em São Paulo. Para o Recife, a previsão era modesta: cinco dias e seis récitas, com patrocínio das Lojas Paulistas, da Loide Aéreo e do Hotel São Domingos, e entradas populares.

A pré-estreia, na tarde de 26 de outubro, foi dedicada aos estudantes da Universidade do Recife. Mas o chefe do Serviço de Censura de Diversões Públicas de Pernambuco, Olímpio Mendonça, já havia determinado que a palavra “revolução” fosse substituída por “movimento” em todo o texto, inclusive no título, por considerá-la “altamente subversiva”. Ao conferir a primeira sessão, com 659 pessoas na plateia, e ver que suas instruções não haviam sido cumpridas, o censor levantou-se da poltrona, caminhou até a ribalta e ameaçou interditar o Santa Isabel e prender a equipe inteira caso a “façanha” se repetisse.

O impasse terminou na política. O prefeito em exercício, Artur Lima Cavalcanti, tranquilizou os artistas; e o vice-governador Pelópidas Silveira entrou no teatro na noite seguinte, enquanto o censor mantinha treze páginas de cortes e a classificação para maiores de 18. A conversa foi curta: Pelópidas pediu que deixassem o caso com ele, a obra seria apresentada. Submisso, Mendonça declarou encerrada a sua missão. A União Brasileira de Escritores, seção Pernambuco, ainda mandaria telegrama ao governador Cid Sampaio, falando em “censura mais descabida”. O desfecho: a Prefeitura ampliou a temporada em mais sete récitas, e 5.221 pessoas viram a peça, numa recepção que Medeiros Cavalcanti resumiu em “surpresa e entusiasmo” diante de um “texto absolutamente moderno, fluente e empolgante”.

A liberdade conquistada por aquele texto, porém, era a exceção que confirmava a regra: a censura barrava palavras e vigiava corpos. Em 1966. Les Girls em Op-Art, espetáculo carioca de travestis que se tornara referência desde a estreia na boate Stop, no Rio, em 1964, foi expulso do Santa Isabel por decisão do prefeito Augusto Lucena depois de 11 sessões e 9.445 espectadores, caso que o livro trata abertamente como homofobia do período. Valdemar de Oliveira, crítico do Jornal do Commercio, comemorou o veto; Adeth Leite e Ângelo de Agostini defenderam o espetáculo. Em 1967, o transformista Mendez, que se apresentava em rádio e casas de espetáculo do Recife, foi eleito Rei Momo do carnaval e teve o mandato cassado por causa da profissão.

O golpe, aliás, já havia produzido a primeira baixa do teatro pernambucano: A Grande Estiagem, tragédia de Isaac Gondim Filho que o conjunto Os Bancários pretendia montar em abril de 1964, foi adiada sem data e depois abortada, porque o Sindicato dos Bancários, sede do grupo, era visto como polo de subversão comunista. A peça, que seria a terceira versão da obra, nunca chegou ao palco. No mesmo 1º de maio de 1964, o teatro picante fazia o caminho oposto: Barreto Júnior, dono do Marrocos, programou uma vesperal em homenagem ao Dia do Trabalho e às novas autoridades, convidando pessoalmente o governador Paulo Guerra, o prefeito Augusto Lucena, o comandante do IV Exército, general Justino Alves Bastos, e os comandantes da 7ª Região Militar, do 3º Distrito Naval e da 8ª Base Aérea. “A lembrança do ator Barreto Júnior em homenagear o Dia do Trabalho e as autoridades constituídas foi recebida com aplausos gerais dos profissionais do teatro no Recife”, registrou Adeth Leite. O picante, sugere a pesquisa, também era um lugar de poder, e de adesão.

A Mandrágora de Maquiavel, segundo trabalho do TPN, apresentado no Teatro do Parque, foi “um retumbante fracasso perseguido até pela Igreja Católica”. Com direção de Hermilo Borba Filho, e com Clênio Wanderley, José Pimentel, Hiran de Lima Pereira, Joel Pontes, Otávio da Rosa Borges, entre outros. Foto: Divulgação

O teatro que se queria moderno também produziu sua maior polêmica. Em 1962, o Teatro Popular do Nordeste (TPN), fundado por Hermilo Borba Filho e Ariano Suassuna, estreou A Bomba da Paz, farsa política escrita e dirigida por Hermilo. O próprio autor a definiu como “uma peça de circunstância, que nasceu de uma raiva pessoal”, de uma desavença com Germano Coelho, então à frente da Secretaria de Cultura e do Movimento de Cultura Popular (MCP). A farsa, que satirizava o comunismo de uma perspectiva cristã e ridicularizava o MCP, foi recebida com críticas majoritariamente negativas, expondo as tensões internas de um grupo que se queria de esquerda, em disputa com irmãos de causa.

A régua da crítica, porém, mudava conforme o alvo. Em 1960, A Mandrágora, de Maquiavel, comédia renascentista sobre adultério e engano, foi atacada como “imoral”; Medeiros Cavalcanti chegou a compará-la, em desvantagem, às comédias populares de Procópio Ferreira. Seis anos depois, o mesmo grupo, com O Inspetor, adaptação de Gógol dirigida por Hermilo, seria celebrado como o mais importante espetáculo de um grupo local em cinco anos, com 81 apresentações. A crítica que condenara o clássico do adultério coroou a sátira à corrupção.

A crítica feita ao Teatro Novo do Recife em sua estreia foi, segundo Leidson Ferraz, uma das mais violentas da década. A casa abriu as portas na noite de 4 de outubro de 1968, num casarão da Avenida Rui Barbosa, no bairro das Graças, que até pouco antes servira de residência ao arcebispo. Dom Hélder Câmara, no exercício do cargo, havia acabado de trocar o aristocrático imóvel pela sacristia da Igreja das Fronteiras, e o prédio anexo ao Palácio dos Manguinhos virou sala de 80 lugares, com estacionamento privativo, bancada pelo monsenhor Marcelo Carvalheira, pela socialite Helena Pessoa de Queiroz e até pelo prefeito Augusto Lucena. À frente do grupo, homônimo da casa, estava o ator e diretor Marcus Siqueira.

Para a inauguração, a aposta foi O Doente Imaginário, de Molière, com Clênio Wanderley, convidado, no papel do hipocondríaco Argan, e figurinos doados pelo estilista Marcílio Campos. A direção coube ao francês Jean Claude Tabet, e a proposta declarada era desmistificar o clássico, sublinhando o popularesco sem trair o autor. A peça ficou em cartaz até 10 de novembro, atraindo bom público e personalidades.

A reação nos jornais foi marcante. Ângelo de Agostini, no Diário da Manhã de 4 de novembro, arrasou o espetáculo, chamando-o de “amontoado inteiramente fragmentado de cenas e sequências da pior categoria possível” e ironizando a pretensão de modernidade que, na sua leitura, não passava de bagunça. O crítico também não perdoou Marcus Siqueira pela contracapa do programa, em que o ator e diretor definia Molière como “de mau gosto, grosseiro, vulgar, chanchadeiro, mas antes de tudo, a obra de um gênio”, contradição que Agostini tratou como sintoma do equívoco geral. Valdemar de Oliveira, no Jornal do Commercio de 13 de novembro, foi na mesma direção, apontando “astigmatismo de direção” e um estilo “anti-Molière”. Quando um espectador escreveu a Agostini lamentando a violência da crítica, o jornalista não recuou: “Não sabemos mentir, nem tirar de uma cartola mágica palavras de aplausos que não refletem a verdade”.

 O Noviço, comédia de Martins Penna, com direção de Alfredo de Oliveira, do Teatro de Arena em 1961. No elenco, Yara Lins, Margarida Cardoso, José Pimentel, Paulo Ribeiro, Belarosa Azolino, Octávio Catanho, Barbosa Santos, Edmilson Catunda e o garoto Bianor de Oliveira. Foto: Divulgação

O Burguês Fidalgo, com Paulo Autran como protagonista e produtor, Isolda Cresta e elenco grande, cumpriu temporada entre novembro e dezembro de 1968, no Teatro de Santa Isabel.  Foto: Divulgação

I Festival de Teatro do Nordeste, ocorreu em 1969, no Santa Isabel, promovido pelo TUP. Foto: Divulgação

Os últimos anos da década trouxeram o fechamento de palcos. O Santa Isabel, que em 1963 deixara de exigir paletó do público, fechou para obras; o Teatro do Parque também; o Marrocos virou “Novo Marrocos” e seria demolido em fevereiro de 1973. O epílogo do livro registra ainda o fechamento do TPN, do Teatro Novo do Recife e do Teatro da AIP. Sob o AI-5, com as plateias minguando, o Recife recebeu em setembro de 1969 a remontagem de Morte e Vida Severina, o poema de João Cabral de Melo Neto musicado por Chico Buarque, dirigida por Silnei Siqueira, o mesmo encenador da versão histórica de 1965. Era a quarta temporada nacional da Companhia Paulo Autran, que já circulava com Liberdade, Liberdade, Édipo-Rei e O Burguês Fidalgo; Paulo Autran vivia o Mestre Carpina, e Carlos Miranda, o Severino, papel que já fizera na primeira montagem da obra, em 1958. A equipe ficou hospedada no Grande Hotel, com apoio do governo do estado, e a renda da primeira apresentação foi destinada às crianças do Juizado de Menores. No mesmo ano, a cidade sediou a única edição do I Festival de Teatro do Nordeste, de 29 de julho a 3 de agosto, no Santa Isabel, promovido pelo TUP. O evento foi repleto de atropelos: convidados do Rio e de Alagoas não vieram, palestras foram canceladas, e apenas cinco grupos se apresentaram, entre eles a Comédia Cearense e o TEA de Caruaru, com Feira de Caruaru, primeiro grande sucesso de Vital Santos. Não havia prêmios, apenas troféus de participação.

Curiosidades não faltam pelo caminho desse livro que já é uma referência sobre teatro no Recife na década de 1960, com mais de 600 páginas. O pernambucano Aguinaldo Silva, então com 20 anos, jornalista e cofundador do Teatro de Equipe de Pernambuco, teve a primeira peça, O Estranho Caso do Homem Que Gostava de Mulher, montada pelo grupo em outubro de 1963, com direção de Clênio Wanderley; apesar da forte publicidade, foi um fracasso comercial. Ele se tornaria, décadas depois, um dos autores mais conhecidos da teledramaturgia brasileira. Em 1960, Procópio Ferreira fizera longa temporada no Marrocos com comédias ligeiras como Essa Mulher é Minha e A Família do Antunes.

A capa de Do Picante à Política resume a aposta do livro: em cima, o glamour do teatro de revista, personificado pela modelo Daise Alves, cuja foto foi gentilmente liberada pelo site Universo Retrô; embaixo, os porões da Ditadura. Com design de Claudio Lira, a publicação estará disponível para download gratuito no site www.leidsonferraz.com.br a partir da noite do lançamento, na quarta-feira (26 de agosto), às 19h, no Teatro Arraial Ariano Suassuna (rua da Aurora, 457, Boa Vista), com entrada franca e projeção de imagens raras do processo de pesquisa.

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O encontro que acolhe: Acaso Casa,
com Mariene de Castro e Almério
por Ivana Moura

Almério  e Mariene de Castro no espetáculo Acaso Casa. Foto: Dvivulgação

Com tantas coisas medonhas acontecendo no mundo, e do nosso lado, a busca pela arte pode ser muita coisa: encontrar a beleza, dar sentido ao que anda disperso, sentir felicidade. No sábado, 22 de agosto, no Teatro do Parque, no Recife, foi tudo isso ao mesmo tempo, no espetáculo Acaso Casa, com Mariene de Castro e Almério. Por duas horas, o mundo lá fora ficou suspenso. Uma viagem que cruza muitas emoções, saudades, resistências, esperanças e talentos gigantes.

Para saber mais dessa viagem, é preciso voltar no tempo. Mariene de Castro e Almério se conheceram numa festa, no Rio, na casa do produtor Zé Maurício Machline, criador do Prêmio da Música Brasileira. A reunião etílico-musical seguiu noite adentro, improvisando canções que cada um levou do seu território. Ela, de Salvador, da Bahia, das matrizes afro-brasileiras. Ele, do agreste pernambucano, dos aboios do avô e das bandas de pífanos de Caruaru, e de todas as sonoridades que encontrou depois, até achar a sua turma. E ali, entre uma canção e outra, descobriram que havia entre eles uma liga, de amizade, de afinidade, sei lá o quê. Uma afetividade para durar.

Dessa afetividade nasceu um espetáculo, e ele ganhou um nome: Acaso Casa. As duas palavras parecem se contradizer. O acaso é o que escapa à casa, o que acontece fora dela, o que não tem endereço. Mas talvez aí more a descoberta. Revelou, sobretudo, que a casa de um podia ser atravessada pela casa do outro. Mariene e Almério descobriram que já partilhavam uma mesma geografia interior. O sertão, o sagrado, a saudade, a terra.

Essa geografia comum virou um projeto, e o projeto ganhou corpo e data. Em 2017, Acaso Casa estreou num show no Rio de Janeiro. Em 2019, o CD e o DVD foram gravados na Casa do Choro, no Rio, lançados pela Biscoito Fino, e indicados ao Grammy Latino de 2020 na categoria Melhor Álbum de Música de Raízes em Língua Portuguesa. O show foi pensado para circular. Os palcos de largada seriam Recife e Salvador, as cidades dos artistas. Mas então tudo fechou. Por uma pandemia.

Nesse intervalo, Almério lançou Tudo é amor, Almério canta Cazuza, Almério e Martins e Nesse exato momento, este último com participações de Maria Bethânia e Zélia Duncan. Mariene lançou Maria da Canção. As vozes amadureceram. E o repertório cresceu. Canções como Quero Você e Antes do Mundo Acabar entraram no show.

O espetáculo que chegou ao Recife neste agosto de 2026 carrega dentro de si o tempo que passou. A interrupção, a perda, a espera, o reencontro. Há algo de uma mágica temporal de camadas nisso tudo. E o público que lota o Teatro do Parque também passou pela pandemia, também perdeu, também sobreviveu. O que se dá no palco é um encontro vibrante. E esse encontro começa nas vozes.

A voz de Mariene é grave, um timbre raro… Dizendo assim, já me vejo entrando na cena de Almério, me fazendo espelho na mão do artista, quando ele canta Salão de Beleza pra baiana. Uma liberdade minha, uma projeção embalada só pela música. De Castro carrega o candomblé, o samba de roda, o jongo, a Bahia, o Recôncavo. Carrega também a própria história, da menina que dançava balé aos cinco anos no Teatro Castro Alves à cantora que, em 2016, embalou a cerimônia de encerramento dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro.

A voz de Almério se insurge contra o estereótipo. Canta de tudo, forró, MPB, e o que vier, mas não se deixa enquadrar em moldura alguma. Canta nas frestas, entre os gêneros, e gosta de brincar com essa liberdade.

No show, Mariene disse que ele é o maior cantor desse país. Tremendo elogio, dito de quem não precisa elogiar ninguém. Ele ficou tão surpreso que só respondeu algumas músicas depois, devolvendo que ela é uma das melhores cantoras do mundo.

Show caloroso. Foto: Divulgação

Duas vozes protagonistas que se reconhecem. No Teatro do Parque, o que se viu foi o cuidado de cada um com o outro. A elegância, o respeito em pequenos gestos, o carinho, o jeito cavalheiro de Almério. O show foi solar, de muita generosidade, de atmosfera intimista, de solos e duetos.

Almério faz de cada canção uma cena. Apresenta personas, dança, e encanta. Mariene mobiliza com a voz e com a força dos gestos, da presença. Juntos, são corpos que se potencializam. Duas subjetividades inteiras.

As canções que sustentam o espetáculo formam um mapa. O repertório de Acaso Casa é uma cartografia afetiva, desenhada a partir de duas memórias que se descobrem coincidentes. As canções de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, Pau de Arara, Estrada de Canindé, Respeita Januário, estão ali. O mapa é grande, e um dos seus territórios é o sagrado.

Nesse campo, Chico César entra. Com duas canções que formam um pequeno ato de subversão. Perto Demais de Deus vem primeiro com Almério. “Tem gente que não deixa Deus em paz / Essa gente é o diabo e faz da vida de Deus um inferno.” Inverte os papéis. Não é o diabo que ameaça Deus, mas pessoas, os seres humanos que não O largam, que O tratam como empregado, que transformam a vida divina em inferno. E Deus Me Proteja, em dueto. “Deus me proteja de mim / E da maldade de gente boa / Da bondade da pessoa ruim.” Uma prece que ninguém é tão bonzinho assim.

Sinhá, de Chico Buarque e João Bosco, interpretada por Mariene é um momento duro, direto. A canção traduz as misérias, as barbáries da escravatura em muitos níveis. Um escravizado jura que nunca viu a moça branca, enquanto o tronco e a mutilação o esperam. É uma ferida exposta, cantada sem desvio.

E é exatamente depois dela que o teatro vira macumba. Mariene vem com Bembé. Canta Ponto de Nanã. Divide Canto de Ossanha com Almério. Eu nem me lembro mais da sequência, um bloco muito forte, que não pede licença nem explicação. Depois de encarar a barbárie, a dor se transforma em culto, em celebração, em pertencimento.

O repertório envereda por coisas que podem ser escorregadias, o amor, a saudade, a tristeza. Espumas ao Vento, de Accioly Neto, um grande sucesso popular. E Choro, de Fábio Jr., consagrada pela banda Limão com Mel, a mesma que destacou Anjo Querubim de Petrúcio Amorim. Almério canta Choro a maior parte sentado, e troca “daquela mulher” por “daquele rapaz”, num gesto pequeno e notável.

A iluminação do espetáculo, assinada por Luciana Raposo, é pensada como dramaturgia, como elemento narrativo que participa da emoção do espetáculo. Os músicos aquecem e dão sabor da cozinha. Em cena, a direção musical de Webster Santos, que também toca os violões, com Rubem França no violão de 7 cordas, Geo Barbosa na sanfona e Fábio Cunha e Luan Badaró nas percussões.

O público conhece os artistas e suas canções. Cantam junto os refrões que o nordeste inteiro conhece, faz o silêncio cúmplice em outras músicas e se instala na plateia a comunhão.

Ao anunciar Antes do Mundo Acabar, de Zélia Duncan e Christiaan Oyens, Almério diz que a compositora foi uma das maiores incentivadoras pelo retomada do show Acaso Casa. A música, escrita para o pai de Zélia que estava doente, faz um apelo ao  presente, ao agora. “Antes do mundo acabar, eu quero ver você.” Posta num espetáculo que sobreviveu a uma pandemia, se torna mais que amorosa, anuncia as urgências do convívio.

É um bonito show e cada um deve levar para sua própria casa algum presente musical.

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Pernambuco no Porto Alegre em Cena

 

Mudando de pele. com Taís Araújo. Foto Nana Moraes

Lia Lia, com Bete Coelho e Camila Pitanga. Foto: Divulgação

Bando do Nada com o espetáculo Imorais. Foto Divulgação

Pela Noite, produção do Recife inspirada em Caio Fernando Abreu. Foto: Divulgação

Porto Alegre tem um festival que, há 33 edições, transforma a cidade em um acontecimento teatral. A cena se expande para além das casas de espetáculos e ocupa ruas, praças e espaços alternativos. São 13 espaços, dos tradicionais às salas independentes, que viram endereços do Porto Alegre em Cena, um dos maiores festivais de artes cênicas da América Latina, que desde 1994 arrasta em média 100 mil espectadores por ano, e que neste ano, entre 10 e 20 de setembro, ocupa a capital gaúcha. Esse é o tamanho de uma prática que virou tradição. Em 2026, esse encontro se confirmou rápido. Metade dos ingressos esgotou em menos de 24 horas após a abertura das bilheterias virtuais, e a maioria dos espetáculos já não tem mais lugares disponíveis para venda. Por trás dessa operação está o coordenador-geral Luciano Alabarse, com a direção geral de Letícia Vieira, a coordenação geral de produção de Claudia D’Mutti e a curadoria da programação local assinada por Adriana Jorgge, Gabriela Munhoz, Luísa Dias Rosa e Rodrigo Marquez.

Os ingressos desta edição abriram na quarta-feira (12), às 17h, no site oficial. uma semana depois, estão praticamente todos esgotados. As quatro montagens pernambucanas no festival lotaram; duas delas, Imorais e Pela Noite, voaram em poucas horas e estiveram entre as primeiras sessões esgotadas da edição, na companhia das produções estreladas de artistas que o grande público conhece da televisão e do cinema, como Taís Araújo (Mudando de Pele), Bete Coelho e Camila Pitanga (Lia Lia), Danielle Winits (Choque! Procurando Sinais de Vida Inteligente) e Grace Gianoukas (Dora).

Um festival que já foi trincheira do teatro mundial

Falar de Porto Alegre em Cena é falar do festival de artes cênicas mais longevo da capital gaúcha; e um dos mais respeitados do país. Desde 1994, o evento pavimentou uma relação incomum entre uma capital do Sul e o que há de mais radical na cena internacional. A lista de quem passou por seus palcos é impressionante. Peter Brook, o encenador inglês que redefiniu o que se entende por clássico; Pina Bausch, a coreógrafa alemã que reinventou a dança-teatro; Bob Wilson e Patrice Chéreau, dois gigantes da direção contemporânea; Philip Glass, o compositor minimalista; a companhia japonesa Sankai Juku, com seu butô hipnótico; o músico bósnio Goran Bregovic; e Marianne Faithfull, cantora e atriz britânica, para além do teatro.

O festival também foi porta de entrada do Brasil para companhias que dificilmente desembarcariam em território nacional por outros caminhos. O caso mais célebre é o do Théâtre du Soleil, de Ariane Mnouchkine. Na 14ª edição, em 2007, o grupo francês apresentou Les Éphémères  em Porto Alegre; e, para recebê-lo, a produção do festival construiu uma réplica da Cartoucherie, o lendário teatro em que a companhia atua no bosque de Vincennes, em Paris. A experiência rendeu um retorno. Anos depois, o festival foi co-realizador da vinda de Os Náufragos da Louca Esperança ao Rio Grande do Sul. Coisas que só um festival com essa musculatura consegue fazer.

EDDY – violência & metamorfose. Foto: Divulgação

O tamanho desta edição

São 46 espetáculos de teatro, dança, circo e música vindos de dez estados – São Paulo, Rio de Janeiro, Paraná, Pernambuco, Bahia, Ceará, Rio Grande do Norte, Goiás, Minas Gerais e Rio Grande do Sul – e mais produções da Argentina e do Canadá. Além dos nomes já citados, o festival reúne ainda Sandra Pêra em Eu Apenas Queria que Você Soubesse – A Música de Gonzaguinha; Juliana Linhares e Laila Garin em As Centenárias, versão musical da obra de Newton Moreno, com 16 canções originais de Chico César sob direção de Luís Carlos Vasconcelos. Também na programação Mãos Trêmulas, texto premiado de Victor Nóvoa sobre amor na terceira idade, etarismo e o apagamento dos idosos, com Cleide Queiroz e Plínio Soares sob direção de Yara de Novaes; EDDY – violência & metamorfose, inspirado na obra do escritor francês Édouard Louis; Corpomundo, mais recente espetáculo da Cia. de Teatro e Dança Fábrica de Sonhos, que une arte, inclusão, diversidade e pertencimento; Medeia, espetáculo solo de Tânia Farias, do Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz, de Porto Alegre.

A curadoria atravessa temas como  corpo, racismo, maternidade, envelhecimento, memória, desejo, solidão e pertencimento e faz reverências a Caio Fernando Abreu (30 anos de morte) e Guimarães Rosa (70 anos de Grande Sertão: Veredas). A abertura, no dia 10, é com La Pampa Grande, encontro musical entre artistas gaúchos e argentinos que reúne nomes como Dolores Solá, Liliana Herrero, Hique Gomez, Arthur de Faria, Vitor Ramil e Nina Nicolaiewsky.

Nem sempre foi fácil. Entre crises de financiamento, a pandemia que fechou teatros por quase dois anos e a disputa por atenção num cenário cultural cada vez mais fragmentado, o festival conheceu edições enxutas, de orçamento apertado e público hesitante. A edição passada, por exemplo, levou 31 espetáculos. A atual traz 46; um salto de 15 montagens, com três internacionais, 28 nacionais e 15 locais.

Que Muito Amou, da Cênicas Cia. de Repertório, com direção de Antônio Rodrigues, que também atua

HBLYNDA EM TRANSito, da artista HBlynda Morais. Foto: Divulgação

Pernambuco em quatro atos

A participação pernambucana no festival é um microcosmo da cena recifense: dramaturgia autoral, adaptações literárias e um solo de afirmação de existência. As quatro montagens estão com lotação máxima.

Imorais, o espetáculo de estreia do Bando de Nada Coletivo de Teatro, com texto de Cristiano Primo, mergulha numa família atravessada por comportamentos fora da norma como abuso, traição, incesto, para discutir a hipocrisia das convenções morais.

Outra adaptação abre caminho por um território afetivo: Pela Noite, da NOZ Produz, parte do conto homônimo de Caio Fernando Abreu para reconstruir o reencontro de dois homens separados há quase vinte anos. Um coro de duas vozes conduz a narrativa, feita de solidão, memória, desejo e erotismo, enquanto Pérsio e Santiago decidem, juntos, sair pela noite. A direção é de Edjalma Freitas, com Amanda Clélia, Wydi Silva, Paulo César Freire e Rogério Wanderley em cena. 

Que Muito Amou, da Cênicas Cia. de Repertório, com direção de Antônio Rodrigues, reúne três contos de Os Dragões Não Conhecem o ParaísoSapatinhos Vermelhos, Praiazinha e “Dama da Noite– para investigar as múltiplas faces do amor, do desejo, da perda e da solidão. Personagens “fora da roda”, à margem, expõem afetos levados ao limite, com Barbara Brendel, Antônio Rodrigues e Guga Patriota.

Há ainda um solo que amplia o leque temático. HBLYNDA EM TRANSito, da artista HBlynda Morais, que transforma a própria trajetória de mulher gorda, preta, candomblecista e não binária em performance, teatro, dança e música, com direção musical de Monique Sampaio.

Por trás do contingente pernambucano há uma ponte que vem de longe. A relação entre a produção teatral do Recife e o Porto Alegre em Cena tem na APACEPE – Associação dos Produtores de Artes Cênicas de Pernambuco – uma de suas articuladoras centrais. Presidida por Paulo de Castro, ator, diretor e produtor que há 27 anos realiza o Janeiro de Grandes Espetáculos, festival internacional do Recife, que também tem recebido produções gaúchas ao longo dos anos. 

Caio Fernando Abreu com sotaque pernambucano

Uma coincidência bonita da edição é  que dos três trabalhos que celebram os 30 anos da morte de Caio Fernando Abreu, dois vêm do Recife. O escritor nascido em Santiago, na Região Central do Rio Grande do Sul (autor de Morangos Mofados e Os Dragões Não Conhecem o Paraíso) , é homenageado por Pela Noite e Que Muito Amou, ambas pernambucanas, além de uma edição especial do Sarau Voador, com Deborah Finocchiaro e Roger Lerina. O gaúcho mais universal da literatura brasileira encontrou no Nordeste leitores que o devolvem, em cena, à sua terra.

Reside Amaro: a semente que brotou no Recife

Antes de Porto Alegre, a ideia nasceu no Recife. O Reside Alegre, que aquece o festival gaúcho desde 2025, é um desdobramento do Reside Amaro, festival realizado em fevereiro de 2025 no bairro de Santo Amaro, na região central da capital pernambucana. A proposta era a mesma que depois atravessaria o país: transformar as histórias de moradores em dramaturgia, apresentada dentro das próprias casas, bares e ruas do bairro.

O projeto foi gestado pela a produtora Paula de Renor, diretora do Reside Festival, que se inspirou no “teatro vecinal” (teatro de vizinhança) da argentina Monina Bonelli, do coletivo Teatro Bombón, de Buenos Aires. Juntas, com o curador Celso Curi (SP), idealizaram uma ação inédita no Brasil: por três dias, o quarteirão entre as ruas Capitão Lima e Rocha Pita, em Santo Amaro, no Recife,  virou palco de mais de 70 apresentações gratuitas, com vizinhos como artistas e intérpretes das próprias histórias. O produtor e agitador cultural Roger de Renor, morador do local, abriu as portas de casa e se tornou o anfitrião do encontro entre artistas e moradores.

A experiência, que contou com alunos do Curso de Interpretação para Teatro (CIT) do Sesc Santo Amaro em todas as etapas, foi a quinta edição do Reside.FIT/PE Festival Internacional de Teatro de Pernambuco, realizado pela Remo Produções Artísticas, com patrocínio do Banco do Nordeste via Lei Rouanet, apoio do Ministério da Cultura e incentivo do Funcultura e do SIC Recife.

A segunda edição no Recife, porém, ainda não saiu do papel. O Reside Amaro ainda não conquistou um edital que viabilize sua realização novamente. A proposta, porém, não se perdeu. Foi justamente essa ideia – a de um festival que mora dentro do bairro e nasce das histórias de quem vive ali –  que o Porto Alegre em Cena enxergou como algo inédito.

Reside Alegre: a cidade como matéria de dramaturgia

Ao ver na proposta do Reside Amaro um formato inédito de festival, o Porto Alegre em Cena propôs aos envolvidos (a mesma equipe que gestou o projeto no Recife) a realização do Reside em Porto Alegre. Nasceu assim o Reside Alegre, que estreou em 2025 integrando as ações formativas do festival gaúcho e agora realiza sua segunda edição.

O projeto escuta histórias de moradores e as transforma em dramaturgia, apresentada depois nas ruas e em espaços fora dos teatros convencionais, como casas, lojas, esquinas. Depois de estrear no Centro Histórico, a iniciativa ocupa agora a rua Alberto Torres, na Cidade Baixa, onde funciona a sede do festival, com a diretora e iluminadora Nara Maia como “vizinha embaixadora”, ao lado da atriz, diretora e produtora Sandra Possani.

A coordenação reúne a argentina Monina Bonelli (direção), a pernambucana Paula de Renor (curadoria), e os paulistas Celso Curi (curadoria e direção) e Wesley Kawaai (coordenação). A mostra resultante das vivências com os moradores da Cidade Baixa acontece nos dias 5 e 6 de setembro, às vésperas da abertura do festival.

 

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O corpo que dança
até cansar o cansaço
Juliana Linhares no Recife
Por Ivana Moura

Apresentação no Teatro de Santa Isabel, no dia 2 de agosto. Foto: Jessica Mendes / Divulgação

Show integrou programação do Festival Recifense de Literatura A Letra e a Voz. Foto: Jessica Mendes

O corpo cansado que dança é a poética que Juliana Linhares põe em movimento no palco do Teatro de Santa Isabel, lotadíssimo na noite de domingo (02/08). Até Cansar o Cansaço (segundo álbum transformado em espetáculo) parte do estado de exaustão da era da hiperconexão e responde com o que parece contraditório: em vez de repouso, mais corpo, mais presença, mais movimento. A artista potiguar, formada no teatro, faz do palco um campo de forças onde a canção é cena, a voz é gesto, e o cansaço não é o fim; é o ponto de partida.

Artista jovem, sim, mas com trabalho maduro, urdido durante anos em elaboração criativa com profissionais de diferentes campos – do teatro à neurociência, da canção popular à dramaturgia contemporânea. Já se tornou uma das maiores artistas da cena, da música e do teatro surgida nos últimos anos. A moça já ganhou um espaço imenso, mas tem tudo para voar muito mais alto.

Magnetismo e humanidade. Brilhantismo e humildade – qualidades que parecem combinar com Juliana. Há conceito, espessura e paixão na alegria que desperta e compartilha neste espetáculo. É impressionante a presença, a performance, o fascínio; é acalanto e cutucada a arte dessa moça.

No Carnaval deste ano, vi Juliana em ação duas vezes. No palco do Marco Zero, no centro do Recife, como convidada do Maestro Forró e da Orquestra Popular da Bomba do Hemetério, cantando Frevo Mulher, quando levantou a galera já acesa. E na Praça do Arsenal, num espetáculo inédito que reuniu a paraibana Cátia de França, a baiana Josyara e Linhares potiguar; três figuras do Nordeste no palco. O show percorria os mais de 50 anos de carreira de Cátia, além de canções do repertório autoral de Juliana e Josyara. Era um mergulho afetivo e político na trajetória da paraibana; uma artista que atravessa décadas de experimentação e resistência. Juliana brilhou nessas passagens, mas no Santa Isabel seu trabalho se revelou em outra dimensão: com densidade artística, construção cênica e repertório que as participações no Carnaval insinuavam.

O público reconhecia o que via. Quente, empolgado, participante; em grande parte já acompanhava a carreira de Linhares de outros carnavais e do álbum anterior, Nordeste Ficção(2021), que dialoga intimamente com identidades, territorialidades e representação cultural do Nordeste.

Até Cansar o Cansaço estreou recentemente no Rio de Janeiro, em 16 de julho, no Teatro Claro Mais, com recepção entusiástica do público e da crítica. No Recife, a apresentação ocorreu dentro da programação do Festival Recifense de Literatura A Letra e a Voz.

O repertório vibra na inquietude e na fadiga coletiva da era da hiperconexão, forjado no esforço de traduzir o nosso tempo sem desistir. Tem células das pesquisas do neurocientista Sidarta Ribeiro sobre os sonhos e do cruzamento de Juliana com o dramaturgo e encenador Marcio Abreu, da companhia brasileira de teatro; cujo texto Linha da vida ela interpreta no meio do show, afirmando que o sonho, a fé e a vida vivida são as matérias-primas do espetáculo.

Para atravessar tudo isso, ela faz do corpo o centro da cena. Pula. Dança. Faz piruetas. Canta deitada no chão. Desce à plateia, dança com uma espectadora, recita versos, subverte rimas numa movimentação que mistura o articulado dos bonecos de mamulengo, a irreverência dos brincantes de circo, o ritmo dos dançantes contemporâneos. É uma danada essa Juliana! Performática, ela mastiga a política e cospe feito fogo no já citado monólogo de Abreu, que expande, no palco, as narrativas do disco.

Espetáculo de Juliana Linhares empolgou a plateia pernambucana. Foto: Jessica Mendes / Divulgação

Juliana Linhares ganha espaço na cena nacional. Foto: Jessica Mendes / Divulgação

O teatro é o tronco na trajetória de Juliana. Desde os 9 anos no grupo teatral da escola, passando pela formação na faculdade de Artes Cênicas, na UniRio e pela estreia profissional em 1995, ela construiu uma identidade cênica que vibra em cada gesto no palco musical. Do trabalho com a coreógrafa Angel Vianna em O Tempo Não Dá Tempo” (2018), de Duda Maia, que celebrava os 90 anos de Angel, à investigação do corpo em cena na companhia brasileira de teatro, onde assinou a trilha sonora de Sonho Elétrico, de Marcio Abreu e fez participações especiais como atriz. Com João Falcão, atuou em A Ópera do Malandro e Gabriela, um musical. Atualmente está em cartaz com As Centenárias, de Newton Moreno, com canções de Chico César e direção de Luiz Carlos Vasconcelos, ao lado de Laila Garin.

O figurino faz extensão desse corpo talhado no teatro. Concebido em camadas por Jailson Fernandes, vai sendo revelado, transformado, desfeito, como a própria jornada do espetáculo.

O show chega com a faixa-título, Até cansar o cansaço (Juliana Linhares e Jeff Lyrio, 2026), cantada com travesseiro como adereço cênico e olhos que se agigantam para potencializar o sentido dos versos. É a cena-fundação: o corpo que cansa, o canto que resiste, o sonho como ato político.

A sequência, O rabo do jumento (Elino Julião, 1967), está carregada de humor nordestino. Supostamente baseada num fato real (um jumento que invadiu o roçado do vizinho Nascimento, comeu um pé de coentro, e teve o rabo cortado como castigo), a canção expõe a história de um homem que recusa o dinheiro da indenização e exige o impossível: “Eu não quero pagamento, Nascimento / Eu quero é outro rabo no jumento”. Juliana canta como quem conta um causo que ainda dói: há comicidade no absurdo, mas há também o retrato de uma relação de poder; o vizinho brabo que pune, ameaça e depois tenta comprar o silêncio. Riso e soco no mesmo gesto.

Em Conseguiram, parabéns (Manduka), o narrador bate palmas com sarcasmo para quem conseguiu o que ele jamais conseguiria: matar o próprio querer, sublimar a paixão, esquecer. No contexto do show, a música toca o nervo central: o que exaure é o esforço diário de ser quem não se é, de desintegrar no ar as montanhas de paixão para caber no que se espera. Questiona o preço de se encaixar. No palco, Juliana dá voz a quem se recusa a pagar.

Do pernambucano Juliano Holanda, criador de poesia urbana que enreda as relações humanas em imagens de rara densidade, vem Emaranhada (2024). A canção que tece um jogo de fios: “passando dedo por dedo, formando novo quadrado, losango feito de elástico”. A vida é jogo, e os fios que se cruzam nos arriscam: “o risco de amar no mínimo, risco de amar no máximo”.

No baião Vida virada, a artista canta parte da música deitada no palco, de costas para a plateia, com as pernas para cima e a cabeça virada – inversão que subverte a frontalidade do palco e reinventa a relação com quem assiste. Ela quebra convenções e o público segue encantado.

Chama da criança (Juliana Linhares e Demarca, 2024), do álbum Nasci no Brasil (2024) da Pietá (banda que a revelou), se entrelaça ao conceito do espetáculo em número que costura citações de Salve as folhas (Gerônio e Ildásio Tavares, 1989), Vapor barato (Jards Macalé e Waly Salomão, 1971) e A mulher do fim do mundo (Romulo Fróes e Alice Coutinho, 2015). “Nessa solidão desenfreada / Sigo me apoiando em quem tem fé / E acredito em forças encantadas / Chama da criança que ainda é”. Cada citação traz, em outra pulsação, o que o show inteiro sustenta: que a vida insiste.

E A palo seco (Belchior, 1973) traz um momento arrebatador do show: um chute coreográfico no ar corta o verso “Eu quero é que esse canto torto / Feito faca, corte a carne de vocês”. Sob ecos e reverbs que seguram a voz depois do último fôlego, ela fala em democracia e liberdade. Escrita em 1973, sob ditadura, a canção chega inteira a 2026: a provocação do corte na carne continua.

Cantando na plateia. Foto: Ivana Moura

“Maravilhosa!” soltou uma voz da plateia. Ao longo do show vieram outras – elogios, exclamações, devoções, saudações – até uma “Perfeita!” O que se vive no Teatro de Santa Isabel é um estado de entusiasmo, de comunhão coletiva. Não por acaso: o trabalho de Juliana Linhares é maduro, provocador, redondo, contagiante, ao mesmo tempo crítico e de bem com a vida. Arrebata o público e gera uma energia que é o reconhecimento partilhado de que algo está acontecendo com todos, ao mesmo tempo, na mesma sala. O consenso, aqui, não é problema; é fenômeno.

Tesoura do desejo (Alceu Valença, 1991) (no arranjo de Elísio Freitas, com a sanfona de Paloma Ronai) marca o momento em que Juliana desce do palco e canta no corredor do Santa Isabel, no meio da plateia pernambucana, bastante aplaudida. É a magia que se forma entre a artista, a banda e um público amante da arte de Linhares. Ela emenda com Balanceiro (Juliana Linhares, Khrystal, Moyseis Marques e Sami Tarik, 2021). E canta “Eu não posso mudar o mundo, mas eu balanço”; dança com uma espectadora, avisa que o corredor está liberado, e alguns se animam para dançar.

Ao lado dessa arquitetura cênica, uma banda precisa. A direção musical é do multi-instrumentista Elísio Freitas, arranjador do show e guitarrista da banda formada por Julia Rodrigues (bateria), Lucas Videla (percussão), Paloma Ronai (sanfona) e Nathanne Rodrigues (baixo). A sanfona de Paloma Ronai e a guitarra de Elísio Freitas entram numa conversa com os outros instrumentos em texturas que vão do baião ao rock, do frevo à balada, sem nunca perder o suingue nem o chamego sobre o que é ser nordestino. Teve também a participação de Helder Vasconcelos, que desenvolveu uma coreografia solo, e Linhares saudou as muitas parcerias com artistas pernambucanos.

A luz do espetáculo esculpe zonas de sombra e fulgor que acompanham os deslocamentos de Juliana pelo palco, potencializando o encontro entre o que se canta e o que se dança, entre a artista e a plateia.

No encerramento, Juliana fala emocionada. Cita o líder indígena e pensador Ailton Krenak: “a gente não pode perder a capacidade e a habilidade de sonhar, porque só sonhando a gente pode reinventar a vida”. Lembra de Angel Vianna, que lhe ensinou que podia se chamar de bailarina. Evoca Ariane Mnouchkine, diretora francesa do Théâtre du Soleil: “o teatro é o lugar onde os mortos veem os vivos”. Agradece ao neurocientista Sidarta Ribeiro, cujas pesquisas sobre os sonhos atravessam o espetáculo desde a primeira cena. E sintetiza: “eu sou o corpo. E através dele a gente pode tudo”. Diz que estava muito nervosa para o show e que preparou o seu melhor: “Espero que vocês saiam daqui um pouco menos cansadas, um pouco mais vivas e conectadas. E eu agradeço imensamente por sonhar acordada por causa de vocês.”

O público não arredava o pé e Juliana não economizava o verso. O espetáculo se prolongou depois do anúncio do fim. Ainda rendeu Tareco e mariola(Petrúcio Amorim, 1995) e outras canções tocadas no bis. Juliana Linhares está ocupando um território que conquistou e nele fincando a bandeira de uma artista que não pede licença para ser grande.

  • Ivana Moura é artista-pesquisadora, jornalista, dramaturga e crítica das artes vivas. Doutora em artes cênicas pela USP (Universidade de São Paulo). Idealizadora, editora e crítica na plataforma Satisfeita, Yolanda?. Foi editora e repórter no Diario de Pernambuco. Integrante da seção brasileira da IATC/AICT (Associação Internacional de Críticos de Teatro).
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Teatro feito na guerrilha
23º FETED

Metamorfose. Foto: Divulgação

Tocando em frente, espetáculo de Sorocaba

Vidas: Não somos passado

A quem interessa um festival de teatro estudantil? À primeira vista, a resposta parece óbvia: aos estudantes que sobem ao palco. Mas o 23º Festival Estudantil de Teatro e Dança (FETED) sugere uma resposta mais generosa. Interessa a quem acredita que o palco também é sala de aula. Interessa à plateia que descobre, numa quarta-feira à noite, o prazer de ver um palco profissional ocupado por talentos em início de carreira. E interessa, sobretudo, a quem sabe que alguns dos grandes nomes do teatro brasileiro começaram exatamente assim: num festival de estudantes.

Desde 2003, o produtor Pedro Portugal realiza o FETED ano após ano, desafiando uma realidade que deveria envergonhar qualquer política cultural: a de não conseguir aprovação nos editais disponíveis nem contar com incentivos diretos, públicos ou privados. Pouco antes da abertura desta edição, ele confessou que inicia o festival sem um centavo de patrocínio. A única interrupção em mais de duas décadas foi em 2020, forçada pela pandemia. O resto foi teimosia, amor ao ofício e o que o próprio meio chama de guerrilha cultural. É nessa guerrilha que o festival segue vivo, contando, nesta edição, com o apoio logístico da Fundação de Cultura e da Secretaria de Cultura da Prefeitura do Recife e do Centro de Formação e Pesquisa das Artes Cênicas Apolo-Hermilo – apoio que, pelo menos até a abertura do festival, não se traduz em recursos financeiros diretos.

Do palco escolar ao palco profissional

Entre 5 e 16 de agosto, sempre de quarta-feira a domingo, o Teatro Apolo recebe dez espetáculos de teatro: dois voltados para as infâncias e oito para adultos. A grade chegou a prever 11, mas uma montagem desistiu por problemas. Participam grupos de escolas públicas e particulares, coletivos independentes, ONGs e universidades, vindos do Recife, de Olinda, de Ipojuca, de Jaboatão dos Guararapes e de Sorocaba, em São Paulo. De crianças à terceira idade, o FETED é um retrato demográfico e social do fazer teatral de base.

Muitos desses estudantes já conhecem o palco – o da escola, o da sala de aula, o do pátio. O que o festival oferece é outra coisa: a chance de subir, pela primeira vez, a um palco profissional, com luz, som, cenário e uma plateia mais diversificada. É esse salto, do espaço escolar para a exibição pública num palco profissional, que transforma a experiência em algo que nenhuma aula consegue reproduzir.

Os ingressos custam R$ 25 (preço único promocional), à venda no Sympla e no próprio local – e há um detalhe que diz muito sobre a proposta: 70% do valor é revertido para cada grupo participante. Ou seja, quem compra o ingresso financia diretamente a produção de quem está estreando ao assiste a um espetáculo. Nesta edição, o festival volta em caráter competitivo, e homenageia dois nomes de longa carreira no campo cultural: a educadora, diretora e atriz Izabel Concessa e o ator, diretor, educador e produtor Antônio Rodrigues.

Comissão de premiação

Para eleger os destaques, o FETED convidou dois profissionais de longa trajetória. Ivana Moura é artista-pesquisadora, jornalista, dramaturga e crítica das artes vivas, doutora em artes cênicas pela USP. Idealizadora da plataforma Satisfeita, Yolanda?, foi editora e repórter do Diario de Pernambuco e integra a seção brasileira da IATC/AICT, a Associação Internacional de Críticos de Teatro. Rudimar Constâncio é historiador, pesquisador, professor e arte/educador, além de ator e diretor teatral. Pós-doutor em Educação pela UFPE, foi gerente de Cultura do Sesc/PE e curador nacional do Festival Palco Giratório, e publicou livros sobre circo social e teatro de cultura popular no Recife.

No dia 16, uma festa encerra a programação com a entrega dos troféus aos vencedores.

O festival que revela gigantes

Não é exagero dizer que festivais amadores e estudantis mudaram a história do teatro brasileiro. E o exemplo mais célebre vem de Pernambuco. Em 1946, Ariano Suassuna, recém-ingresso na Faculdade de Direito do Recife, reformulou, ao lado de Hermilo Borba Filho e Aluísio Magalhães, o Teatro do Estudante de Pernambuco (TEP), grupo criado em 1940 por estudantes de Direito e que ganharia consistência artística sob a direção de Hermilo. Foi num concurso do próprio TEP que Ariano estreou como dramaturgo, em 1947, vencendo com Uma Mulher Vestida de Sol. Dez anos depois, a consagração nacional viria por outro caminho estudantil: o Teatro Adolescente do Recife levou O Auto da Compadecida ao I Festival de Amadores Nacionais, realizado em fevereiro de 1957, no Rio de Janeiro. A montagem pernambucana arrebatou os principais prêmios: medalhas de ouro de melhor espetáculo, melhor diretor (Clênio Wanderley) e melhor atriz (Ilva Niño). Um festival de estudantes, portanto, revelou ao Brasil um de seus maiores dramaturgos.

O FETED não promete um novo Suassuna a cada edição, mas aposta exatamente nessa possibilidade; a de revelar dramaturgos, atrizes, atores, diretores e outros futuros profissionais do teatro e é isso que o torna um espaço único de formação.

Na guerrilha, mas de pé

Que um festival desse porte sobreviva sem patrocínio e sem edital aprovado é, ao mesmo tempo, um feito e um sintoma. Feito, porque exige de Pedro Portugal e de todos os envolvidos uma energia que nenhuma planilha governamental consegue medir. Sintoma, porque revela o descaso com um dos espaços mais democráticos de formação artística do país. Enquanto isso, o FETED segue fazendo o que sabe fazer de melhor: abrir o palco, baixar o preço, dividir a renda com quem está começando e deixar a plateia sair do Teatro Apolo com a certeza de que o teatro brasileiro tem futuro; porque, Brasil adentro, festivais como este seguem de pé, muitos na mesma guerrilha, sem patrocínio, movidos apenas pela convicção de que o palco pertence também a quem está chegando.

Serviço

23º Festival Estudantil de Teatro e Dança (FETED),
de 5 a 16 de agosto,
Teatro Apolo (Rua do Apolo, 121, Bairro do Recife).
Ingressos: R$ 25, à venda no Sympla e no local.

Lampião e Maria Bonita no Reino Divino

Beijo da Princesa

Programação

Cazuza – Vida Breve (ETE – Prof. Alfredo Freyre – Olinda).
Texto Walmir Ribas, Direção Sergio Barbosa.
Quarta-feira, dia 05, às 19h.

Lampião e Maria Bonita no Reino Divino (Cia de Teatro Novos Talentos – Recife).
Texto: Annamaria Dias. Direção: Suzana Costa e Marcelo Maracá.
Quinta-feira, dia 06, às 19h.

Olinda Seus Cantos, Recantos e Caminhos (Colégio São Bento de Olinda – Olinda).
Texto: Criação coletiva. Direção: Sérgio Barbosa.
Sexta-feira, dia 07, às 19h.

Vivas: Não Somos Passado (Erem – José Mário Alves da Silva – Clube de Teatro Mimesis – Ipojuca).
Texto e Direção: Laryssa Carvalho.
Sábado, dia 08, às 18h

Cravo, Não Briga Com Rosa (Colmeia das Artes – Recife).
Texto e Direção: Miro Ribeiro,
Domingo, dia 09, às 16h.

Metamorfoses (Universidade Federal de Pernambuco – Recife).
Criação coletiva. Direção: Marina Lino. Direção: Marina Lino e Malu Oliveira
Domingo, dia 09, às 20h.

Tocando em Frente (Associação Cultural Fazendo Arte – Sorocaba – SP).
Texto e Direção: Junior Mosko.
Quarta-feira, dia 12, às 19h.

O Orbe (Escola Municipal de Arte João Pernambuco – Recife).
Texto: Lucas Barreto e Direção: João Pedro Pinheiro.
Quinta-feira, dia 13, às 19h.

O Beijo da Princesa (EREM – Edson Moury Fernandes – Recife).
Texto e Direção: Julio Botelho.
Sábado, dia 15, às 16h.

O Brasil Que Trabalha (Os Caras de Pau – Recife).
Texto e Direção: Benedito Serafim.
Sábado, dia 15, às 20h.

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