Beckett, o esgotamento e a
cena com Nanini, Weber,
Helena Ignez e Ary França

Marco Nanini e Guilherme Weber em Fim de Partida. Foto: Annelize Tozetto

É perturbadoramente atual a condição de corpos confinados num espaço claustrofóbico, dependentes uns dos outros para a própria sobrevivência, diante de um mundo exterior que pode não existir mais. Samuel Beckett escreveu Fim de Partida nos anos 1950, sob a sombra ainda fresca da Segunda Guerra Mundial, e descreveu esse cenário com a precisão cirúrgica de quem dissecou o século 20 e encontrou, no fundo, apenas destroços. Mais de sete décadas depois, a peça  parece ter esperado o mundo alcançá-la.

Com Marco Nanini como Hamm e Guilherme Weber como Clov, o espetáculo chega ao Teatro Luiz Mendonça, no Recife, para quatro apresentações de quinta a domingo (entre os dias 23 e 26 de julho de 2026), após temporadas aclamadas em São Paulo, Brasília e Fortaleza.

Nanini já alimentava o desejo de encenar Beckett quando Weber lhe fez a provocação de voltarem a dividir o palco, vinte anos após A Morte do Caixeiro Viajante (2004) e mais de duas décadas desde Os Solitários (2002), ambos marcos da cena brasileira. A química entre os dois atores é apontada com um dos alicerces que sustentam a produção. São profissionais que acumulam décadas de palco e levam para a cena o peso de uma experiência que dialoga diretamente com a exaustão, a repetição e a paralisia que estruturam o universo beckettiano.

Ao lado da dupla central, duas presenças carregadas de história conferem ao espetáculo uma dimensão de reencontro afetivo. Helena Ignez, ícone do cinema brasileiro, com quem Nanini contracenou no início da carreira, vive Nell – aparição breve, porém luminosa, confinada numa lata de lixo ao lado de Nagg, interpretado por Ary França, parceiro de Nanini no premiado O Burguês Ridículo (1996). Quatro corpos que carregam a memória do teatro brasileiro e, ao mesmo tempo, encarnam personagens despidos de praticamente tudo – exceto da teimosa insistência em continuar existindo.

Helena Ignez e Ary França. Foto: Fernando Young / Diulgação

Portella chega a esta montagem em momento de consagração profissional, com espetáculos recentes como Tom na Fazenda, Ficções, Um Ensaio sobre a Cegueira (Grupo Galpão) e Ray. A partir dessa trajetória, propõe para Fim de Partida uma leitura estruturada em três fluxos de sentido que se sobrepõem sem se anular.

O primeiro é a relação simbiótica entre Hamm e Clov – dependência física e emocional atravessada por violência cotidiana, jogos de poder e uma crueldade que se disfarça de rotina. O segundo é uma alegoria política: Hamm como tirano arbitrário, figura que alude à lógica da guerra e do militarismo, cuja autoridade se funda no poder bélico e opressivo; Clov como corpo submisso, soldado em vigília permanente, sempre de pé, incapaz de repouso, a serviço de uma engrenagem que não faz nenhum sentido. O terceiro é o metateatro.

Essa dimensão metalinguística encontra, na concepção cenográfica arquitetada por Daniela Thomas, sua materialização mais eloquente. A diretora de arte instala no palco uma espécie de caixa cênica retangular dentro do qual Hamm e Clov se movimentam. Acima, duas janelas no teto. Trata-se de um palco dentro do palco. Clov é o clown, o operador da cena, o ridículo; Hamm é o ator principal, o narrador canastrão que se sustenta na fabulação de si mesmo. O teatro se dobra sobre si próprio – e essa dobra é, talvez, a afirmação mais esperançosa (ou mais desesperada) que a montagem promete: mesmo reduzido a escombros, o gesto artístico insiste em se fazer.

A concepção visual do espetáculo – iluminação de Beto Bruel projetada para recortar o espaço cênico, figurinos de Antonio Guedes concebidos para transportar os personagens a um universo devastado de tecidos recortados e sobrepostos, trilha original de Federico Puppi que pontua com discrição os momentos de maior tensão – tem provocado, desde a temporada paulistana, um debate crítico que merece registro.

Gustavo Assano, em texto publicado em junho no site Outras Palavras, sustentou que a montagem “abusa de recursos visuais e tenta embelezar o que deveria permanecer inquietante e vazio de sentido”. Para ele, Beckett teria brigado com encenações que tentassem criar alegorias com o espaço, e a opulência cênica representaria um recuo diante do insuportável da obra – uma domesticação do horror.

Contrasta com essa leitura a percepção registrada em maio, no blog Mise-en-scène, da Folha de S.Paulo, de que o espetáculo constitui “um acontecimento teatral de rara força e inteligência” que não apenas revisita o clássico com o respeito que a obra-prima exige, mas o revitaliza ao propor uma leitura contemporânea afiada. Nessa perspectiva, a riqueza visual evidencia o absurdo ao trazê-lo para novas perspectivas, transformando o cenário de devastação em constructo cênico que coloca a plateia como observadora de um mundo impossível de localizar.

A montagem de Beckett permanece resistente a leituras unívocas. Foto: Annelize Tozetto / Divulgação

Fim de Partida é, como observou Theodor W. Adorno, o retrato de um impasse. O título é irônico; pois não se trata da conclusão de uma partida, mas do fechamento fatal das possibilidades de que ela ocorra. Hamm e Clov perguntam ou afirmam, repetidas vezes, se estão diante do término: “acabou, está acabando, quase acabando, deve estar quase acabando.” Mas nada se conclui. A ação continua, com menos mundo. A fala continua, com menos confiança. O corpo continua, com menos promessa.

A referência de Adorno está em seu ensaio “Versuch, das Endspiel zu verstehen” (Tentativa de compreender Fim de Partida), publicado originalmente em 1961 e incluído na coletânea Noten zur Literatur (Anotações sobre Literatura); com edição em português pela Editora 34. Nesse texto, o filósofo sustenta que o objeto de Beckett não é a catástrofe em si, mas a vida que continua após ela, num mundo em que nem mesmo os sobreviventes conseguem sobreviver. Adorno identifica uma tensão estrutural, ou seja, a pulsão de morte de Hamm coincide com seu próprio princípio vital, ao passo que a vontade de viver de Clov talvez venha a provocar a morte de ambos.

Beckett não oferece atenuantes. Não há redenção, não há sequer a dignidade de um sofrimento personalizado. Hamm e Clov são figuras despidas de individualidade que espelham um processo mais amplo. A violência despersonalizada e anônima do capitalismo tardio, ou, em termos mais imediatos, a persistência de relações de poder mesmo quando não existe mais nada a dominar.

Serviço

Fim de Partida
Local: Teatro Luiz Mendonça — Parque Dona Lindu (Av. Boa Viagem, s/n, Boa Viagem, Recife)
Datas e horários: 23, 24 e 25 de julho (quinta, sexta e sábado), às 20h
26 de julho (domingo), às 19h
Classificação indicativa: 16 anos
Ingressos: R$ 75 a R$ 200 (inteira) / R$ 100 (meia-entrada)
Vendas: teatroluizmendonca.byinti.comFicha técnica

Ficha técnica

Texto: Samuel Beckett
Direção: Rodrigo Portella
Tradução: Fábio de Souza Andrade
Direção de Arte e Cenografia: Daniela Thomas
Iluminação: Beto Bruel
Trilha Original e Direção Musical: Federico Puppi
Figurino: Antonio Guedes
Assistência de Direção: Zé Mancini
Visagismo: Leila Turgante
Comunicação: Pedro Neves
Gerência de Projetos: Carolina Tavares
Produção Executiva: Ártemis
Produtor: Fernando Libonati
Realização: Pequena Central de Produções
Instagram: @pequenacentral_

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A luz brilhante de Helena Ignez
na Ocupação Itaú Cultural

 

Aos 87 anos, Helena Ignez se torna a primeira cineasta mulher homenageada pela série Ocupação do Itaú Cultural. Foto: filme A alegria é prova dos nove / Reprodução

Helena Ignez não cabe em uma definição. Atriz, diretora, cineasta, antimusa – talvez o termo mais preciso seja força em movimento. Desde que ingressou na Escola de Teatro da Universidade Federal da Bahia em 1956, ainda nos anos de formação que a levariam ao encontro com Glauber Rocha e o Cinema Novo, Helena construiu uma trajetória que desafia qualquer tentativa de enquadramento. A Ocupação que o Itaú Cultural inaugura neste 22 de julho, na Avenida Paulista, busca entregar a narrativa em primeira pessoa para a própria artista, deixando que sua voz, seu corpo e sua prática experimental guiem o visitante.

É a 74ª edição da série Ocupação, e a primeira a homenagear uma cineasta mulher. Mas a exposição, que fica em cartaz até 18 de outubro com entrada gratuita, faz questão de escavar um território da produção de Helena que o grande público conhece menos: o teatro. Não por acaso. Foi nos palcos que ela aprendeu a ocupar o espaço com a inteireza de quem entende o gesto como linguagem e a cena como campo de batalha política.

Helena está no elenco do espetáculo teatral Fim de partida, que circula pelo Brasil . Foto: Fernando Young 

O teatro como raiz e retorno

A mostra dedica um núcleo significativo à produção teatral de Helena, reunindo programas de espetáculos, críticas históricas – incluindo uma de Nelson Rodrigues – e documentos de processo de trabalho que revelam décadas de dedicação aos palcos. É um aspecto que a própria artista faz questão de sublinhar: o teatro sempre teve importância absoluta em sua vida, mesmo que sua imagem pública tenha sido forjada sobretudo pelas telas.

Neste momento, Helena está em plena atividade teatral. Integra o elenco de Fim de Partida, o clássico de Samuel Beckett dirigido por Rodrigo Portella, ao lado de Marco Nanini, Guilherme Weber e Ary França. A peça – que esteve em cartaz em São Paulo e no Rio de Janeiro e faz apresentações no Recife (de 23 a 26 de julho, no Teatro Luiz Mendonça) e Porto Alegre (17 e 18 de outubro, no Teatro Simões Lopes Neto) – coloca Helena no centro de um dos textos mais contundentes do teatro moderno, marcado por humor ácido, silêncios dilacerantes e a espera por um fim que nunca chega.

Em entrevista recente ao portal bahia.ba, Helena colocou Beckett no mesmo patamar de Shakespeare. Para ela, ambos são escritores cuja inteligência se manifesta em cada camada da obra e atravessam o tempo com a mesma potência. Shakespeare segue atual porque fala das paixões humanas, dessa imprevisibilidade que nós somos. Beckett, por sua vez, fala do absurdo – da existência sem sentido, da espera que nunca se completa, de personagens presas em ciclos dos quais não conseguem escapar.

Sobre a personagem que interpreta em Fim de Partida, Nell, a atriz destaca o paradoxo que a torna tão fascinante: moradora de uma lata de lixo, é ao mesmo tempo a única mulher da peça e a única que efetivamente rompe com o outro personagem. “Ela fala o que quer, expressa sua loucura, mas é livre dentro disso”, disse Helena. “Acho uma peça maravilhosa para refletirmos. E continuará sendo atual.”

A atriz no filme A Mulher de Todos, de 1969, dirigido por Rogério Sganzerla

Antimusa: o gesto de recusar o lugar de objeto

A exposição não se furta a enfrentar a imagem que a sociedade tentou colar em Helena. Um dos eixos mais potentes da curadoria é dedicado ao conceito de antimusa – termo que a própria artista mobiliza para recusar o papel de musa inspiradora e afirmar seu lugar como sujeito criador. O visitante encontra ali um conjunto impactante de manchetes históricas, imagens e vídeos que mostram como Helena subverteu os papéis de gênero impostos às atrizes, especialmente durante os anos de chumbo da ditadura militar.

Desse núcleo, emerge com força A Mulher de Todos (1969), dirigido por Rogério Sganzerla, frame central da exposição. O filme, exibido em cópia restaurada, apresenta Ângela Carne e Osso – personagem que Helena encarnou com uma irreverência que atravessou o tempo. Ninfomaníaca que faz os homens de gato e sapato, Ângela foi uma interpretação revolucionária no cinema brasileiro justamente por recusar a passividade feminina em plena repressão.

Já o espaço dedicado à produtora Belair mergulha em 1970, ano em que Helena, ao lado de Rogério Sganzerla e Júlio Bressane, realizou seis longas-metragens em poucos meses – uma explosão criativa que a ditadura tratou de interromper. A exposição reúne frames, vídeos, materiais de bastidores e, especialmente, um documento em que Helena se posiciona contra a censura. É ali que a resistência se materializa em papel e película.

O Bandido da Luz Vermelha

Em parceria com a Cinemateca Brasileira, o projeto também realizou ações de preservação fundamentais, como a captura fotográfica digital de películas de títulos emblemáticos. Três desses filmes merecem destaque: O Bandido da Luz Vermelha (1968), de Sganzerla, um clássico do cinema marginal que até hoje influencia gerações, com Helena no papel de Janete Jane; O Padre e a Moça (1966), de Joaquim Pedro de Andrade, um drama inspirado no poema homônimo de Carlos Drummond de Andrade, com Helena no papel de Mariana e O Grito da Terra (1964), de Olney São Paulo, uma raridade do período pré-Cinema Novo, drama sertanejo que ganhou uma nova cópia digital e volta a ser apresentado ao público. 

A cineasta por trás da câmera

A Ocupação evidencia ainda o trabalho de Helena como diretora. Roteiros, cadernos de processo, vídeos e bastidores de filmes como A Alegria é a Prova dos Nove (2023), Luz nas Trevas – A Volta do Bandido da Luz Vermelha (2010) e o documentário Fakir (2019) estão acessíveis ao público. Como atriz, a mostra dialoga com sua produção mais recente, incluindo o longa Nosferatu (2025).

Há também um mural de fotos que é, por si só, uma aula de história cultural brasileira: as imagens registram parcerias longevas com Sganzerla, Antônio Pitanga, Paulo Villaça, Cristiano Burlan e Jean-Claude Bernardet, além de encontros com Jô Soares, Maria Gladys, Zé Celso Martinez Corrêa e Ney Matogrosso.

Programação paralela: uma temporada inteira dedicada a Helena

Fora do espaço expositivo, a programação é igualmente ambiciosa. A Itaú Cultural Play disponibiliza uma retrospectiva gratuita com 23 filmes – entre obras dirigidas e estreladas por Helena – que fica no ar durante todo o período da exposição, de 22 de julho a 18 de outubro de 2026. O acesso é gratuito pelo site itauculturalplay.com.br e pelos aplicativos para smart TVs, dispositivos móveis (Android e iOS) e Chromecast.

A plataforma também será o destino final do curta-metragem inédito Des-criação, codirigido por Helena e André Guerreiro Lopes em formato híbrido que dialoga com a videoarte e o cinema de invenção; uma imersão no universo interior da artista, suas reflexões sobre arte, tempo, vida e morte.

Haverá exibições presenciais em setembro no Cine Glauber Rocha (Salvador) e em outubro na sede do Itaú Cultural (São Paulo). E, coroando a programação teatral, o teatro do Itaú Cultural recebe em outubro a remontagem de Savannah Bay, de Marguerite Duras, com direção de André Guerreiro Lopes e Helena no elenco; revisitando o texto que ela já havia interpretado em 1999 e 2001 sob a direção de Rogério Sganzerla.

Ficha técnica

Helena Ignez – 74ª edição da série Ocupação
Concepção e realização: Itaú Cultural
Curadoria: Equipe Itaú Cultural
Consultoria de conteúdo: Djin Sganzerla
Projeto expográfico: Renata Mota
Assistência de expografia: Lanussi Pasquali, Livia Fauaze e Louise Braga
Abertura: 22 de julho de 2026, às 19h30
Visitação: De 23 de julho a 18 de outubro de 2026. Terça a sábado, 11h às 20h. Domingos e feriados, 11h às 19h
Local: Itaú Cultural – Avenida Paulista, 149, São Paulo (próximo ao metrô Brigadeiro)
Entrada: Gratuita

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Um tambor que atravessa o Atlântico:
Klemente Tsamba em Pernambuco

Klemente Tsamba apresenta espetáculo Karingana e a Batucada de Contos em Pernambuco. Foto: Divulgação

Um chamado vem do outro lado do oceano. Chega como batida; um tam-tam que percorre o Atlântico Negro e encontra eco no chão de Pernambuco. Quem o traz é Klemente Tsamba, ator, músico, performer e contador de histórias nascido na Malhangalene, um dos bairros mais pulsantes de Maputo, Moçambique. Entre os dias 22 e 25 de julho de 2026, ele ocupa dois territórios simbólicos na Região Metropolitana do Recife: o Quilombo dos Camarás, em Camaragibe, e o Espaço O Poste, no bairro da Boa Vista.

Tsamba chega para instaurar uma roda. Uma roda que gira ao redor da fogueira imaginária, debaixo da árvore sagrada dos contos, onde os animais falam, os tambores improvisam e o público é convidado a acrescentar o ponto.

O coração da montagem solo Karingana e a Batucada de Contos é a tradição oral moçambicana. Karingana é o chamado que antecede a narrativa, o aviso de que um conto vai começar. No palco, Tsamba convoca o público para um mergulho que mescla teatro, percussão e jogo. A interação, o improviso e a certeza de que cada sessão é única porque cada plateia traz consigo um ponto novo para acrescentar à história.

A encenação reafirma o poder da palavra dita, do corpo que dança enquanto narra, do tambor que marca o tempo da memória. Sua arte é um fio que liga Moçambique ao Brasil – duas margens da mesma diáspora africana.

Oficina com o moçambicano acontece no Recife e em Camaragibe. Foto: Arquivo do artista

Corpos Sonoros: A Oficina como Encontro

Antes da apresentação, vem a oficina. Corpos Sonoros é um laboratório de criatividade onde Tsamba propõe um mergulho na cultura do sul de Moçambique através de perguntas e respostas, construção de esculturas sonoras, jogos de ritmo e movimento, e coreografias improvisadas. Mais do que ensinar técnica, a oficina convida cada participante a descobrir seu próprio corpo como instrumento de expressão.

O improviso e a brincadeira são o centro do encontro. Tsamba constrói junto com os participantes, e o resultado pode ser uma celebração memorável… ou simplesmente um momento que transforma.

Tsamba  vem pela terceira vez para um programa d’O Poste. Foto: Margareth Leite / Divulgação

Esta é a terceira vez consecutiva que Klemente Tsamba cruza o Atlântico para encontrar o público pernambucano. Em 2024, estreou com Nos Tempos de Gungunhana, monólogo que revisita a história do último imperador do Império de Gaza. Em 2025, trouxe Dizcontos: Memórias de Imigração, uma reflexão sobre deslocamento e pertencimento. Agora, em 2026, retorna com a batucada dos contos; cada ano um novo capítulo de uma mesma narrativa em construção.

A vinda de Tsamba é fruto do projeto Luz Negra: o Negro em Estado de Representação, do grupo O Poste Soluções Luminosas, realizado com fomento da Fundação Nacional de Artes (Funarte), vinculada ao Ministério da Cultura. O projeto financia a circulação do artista e afirma o compromisso de fortalecer as conexões entre África e Brasil por meio da arte, da ancestralidade e da criação coletiva.

Nesta edição, a programação chega também ao Quilombo dos Camarás, em Camaragibe, em um movimento que leva a oficina e a apresentação diretamente ao terreiro quilombola. Lá, as atividades são voltadas exclusivamente para as pessoas do próprio território – um reconhecimento de que a cultura africana vive e pulsa nas comunidades que preservam essa herança no Brasil.

Quando Tsamba partir, o que fica? Ficam os corpos que aprenderam a soar juntos. Ficam as histórias que foram contadas e recontadas. Fica a certeza de que a tradição oral africana é uma tecnologia viva de transmissão de saber, afeto e resistência.

Como diz o próprio artista: “O contador é quem conta o conto, mas o ouvinte é quem acrescenta o ponto.” O Recife, ao receber Klemente Tsamba, é também contador. É também ponto.

Ficha Técnica
Textos: A partir de contos tradicionais moçambicanos;
Criação e interpretação: Klemente Tsamba;
Apoio e assistência: Ana Palma (Teatro da Garagem);
Bonecos e Adereços: Klemente Tsamba;
Produção: Chamadarte AC;
Duração: 50 minutos

Programação

22/07 (qua) Quilombo dos Camarás – Camaragibe
Oficina Corpos Sonoros, 9h–12h

22/07 (qua) Quilombo dos Camarás – Camaragibe
Espetáculo Karingana e a Batucada de Contos, 17h

24/07 (sex) Espaço O Poste – Boa Vista, Recife
Oficina Corpos Sonoros, 18h

25/07 (sáb) Espaço O Poste – Boa Vista, Recife
Espetáculo Karingana e a Batucada de Contos, 17h

Gratuito, ingressos no Sympla
Classificação livre

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Semana Hermilo:
Entre arquivo, cena e pensamento

Hermilo Borba Filho e corredor do teatro que leva seu nome, em imagem editada com AI. Programação gratuita no Recife relê a obra de HBF com exposição, espetáculos, palestras e atividades formativas. Foto: Andréa Rêgo Barros e Arquivo

Exposição Mão Molenga – 40 anos de história. Foto: Carla Denise

A cada nova edição, a Semana Hermilo recoloca uma pergunta simples e decisiva: o que uma cidade faz, de fato, com a obra de um autor que ajudou a pensar sua cena cultural? Neste ano, entre 4 e 11 de julho, a programação gratuita promovida pela Prefeitura do Recife no Teatro Hermilo Borba Filho responde a essa questão com uma combinação de exposição, espetáculos, palestras e ações formativas em torno de Hermilo Borba Filho (1917-1976), escritor, encenador, professor, crítico e ensaísta nascido em Palmares, cuja atuação foi central para a formulação, em Pernambuco, de uma literatura e de um teatro ligados à cultura popular nordestina.

Realizada desde 2002, a Semana se firmou como um dos principais espaços públicos de circulação da obra e do pensamento de Hermilo no Recife. Essa permanência também passa pela atuação de Leda Alves (1931-2023), atriz, escritora, gestora cultural e companheira de Hermilo, com quem fundou, nos anos 1960, o Teatro Popular do Nordeste (TPN). Formada em Arte Dramática pela UFPE, Leda teve papel preponderante na defesa da cultura popular e na preservação desse legado no campo institucional. Foi secretária de Cultura do Recife entre 2013 e 2020, além de ter dirigido o Teatro Santa Isabel e presidido a Cepe e a Fundarpe. Sua trajetória ajudou a manter em circulação a memória de Hermilo, como também uma leitura de sua obra vinculada à cultura popular como prática artística e como política pública.

A edição de 2026 distribui esse legado em três frentes. Há um eixo de memória e visualidade, com a exposição do Mão Molenga; um eixo de cena, com Sob Julgamento e O Traidor; e um eixo de reflexão crítica, com palestras voltadas à dramaturgia, à ficção em prosa e ao projeto do Teatro Popular do Nordeste.

Mão Molenga. Foto Fábio Caio

A abertura, no dia 4, começa com a exposição Mão Molenga – 40 anos de história, em cartaz até 4 de agosto. Criado em 1986, o Mão Molenga Teatro de Bonecos é um dos grupos mais duradouros do teatro de animação em Pernambuco. O grupo ostenta uma trajetória continuada de pesquisa em bonecos, formas animadas, oficinas, vídeo e TV, além de manter um acervo de mais de 300 bonecos e cerca de 600 figurinos de época. A formação histórica do coletivo reúne Marcondes Lima, Fábio Caio, Carla Denise e Fátima Caio, hoje lembrada in memoriam.

A mostra leva para dentro da Semana uma tradição concreta do teatro popular nordestino, em que o boneco atua como linguagem, invenção plástica e permanência cultural. Ao aproximar Hermilo de uma prática artística viva e de longa duração, a exposição reforça um ponto essencial: a cultura popular que atravessa sua obra é campo material de criação, transmissão e memória.

Na mesma noite, entra em cena Sob Julgamento, com nova sessão no dia 5. Com concepção e direção de Marcondes Lima, a montagem assume um ideário brechtiano e se organiza em cinco episódios, correspondentes a etapas de um processo judicial: citação do réu, resposta do réu, instrução probatória, alegações finais e sentença. As cenas reúnem situações construídas a partir de fatos reais e outras extraídas de obras de Bertolt Brecht, intercaladas por canções do cancioneiro brasileiro.  A presença do espetáculo na abertura ajuda a qualificar o elo entre a Semana Hermilo e o ambiente de formação: trata-se de um trabalho realizado por alunos do curso de teatro da UFPE, em sintonia com a vocação do Centro Apolo-Hermilo como espaço de pesquisa e prática cênica. 

De 6 a 9 de julho, o centro da programação passa a ser o ciclo de palestras, que amplia o alcance da homenagem. Na segunda-feira (6), a mesa Da manhã à meia-noite – A modernidade expressionista nas dramaturgias de Nelson Rodrigues e Hermilo Borba Filho, com Samantha Lima de Almeida e Anco Márcio Tenório Vieira, e mediação de Carlos Carvalho, tem apoio direto em pesquisa acadêmica. Em dissertação defendida na UFPE em 2021, Samantha sustenta que tanto Nelson quanto Hermilo recorrem a elementos dramáticos expressionistas, embora avancem por trajetórias diferentes: Nelson voltado ao chamado Teatro Desagradável, e Hermilo comprometido com um Teatro do Nordeste, ligado a temas e formas da região.

Na terça-feira (7), a programação se volta para Os Ambulantes de Deus, novela de Hermilo Borba Filho discutida na palestra Êxodo, desordem e mito – A sátira menipeia em Os Ambulantes de Deus, com Raphael Victor Alves de Jesus e Marcondes Lima, também sob mediação de Carlos Carvalho. A aproximação da novela com ideias como êxodo, mito e desordem aponta para uma prosa atravessada por deslocamento, imaginação religiosa e tensão simbólica, deslocando a leitura de Hermilo para além de um quadro de costumes ou de uma marca estritamente regional.

Na quarta-feira (8), o foco recai sobre o romance Agá, na palestra Metaficção e intermidialidade no romance Agá, de Hermilo Borba Filho, com Eron Villar e Yuri Jivago Amorim Caribé, com mediação de Carlos Carvalho. Também aqui há respaldo acadêmico. Em dissertação defendida na UFPE em 2023, Eron analisa Agá a partir de categorias como metaficção, intertextualidade e intermidialidade, mostrando um romance em que o eu-narrador articula elementos de ficção e realidade e estabelece relações com outras linguagens, como teatro, dança e histórias em quadrinhos. O interesse desse recorte está em reposicionar Hermilo como escritor de construção complexa, atento às passagens entre literatura e outras artes.

Na quinta-feira (9), a mesa Hermilo Borba Filho. TPN, o teatro do mundo retoma um dos núcleos decisivos de sua trajetória: o Teatro Popular do Nordeste. Participam da conversa Luiz Reis e a jornalista Ivana Moura, com mediação de Carlos Carvalho. Hermilo fundou o TPN em 1960, com o objetivo de abrir caminho para um teatro de arte em caráter profissional na região. Seu trabalho buscava um espetáculo nordestino, com estética épica apoiada nos folguedos populares. Luiz Reis é autor da tese de doutorado Fora de cena, no palco da modernidade: um estudo do pensamento teatral de Hermilo Borba Filho, defendida na UFPE em 2008. A expressão “teatro do mundo” sugere justamente isso: um projeto que parte do Nordeste não para confiná-lo, mas para transformá-lo em linguagem de cena, leitura de país e ambição estética.

A programação inclui ainda atividades formativas como o workshop Teatro como insurreição poética, com Quiercles Santana, e a oficina O cavalo-marinho na construção do corpo cênico, com Mestre Fábio Soares. As atividades formativas acontecem ao longo do período de 6 a 9 de julho e têm duração de três ou quatro horas, reforçando a vocação da Semana para articular fruição e transmissão, cena e pensamento.

O encerramento cênico acontece com O Traidor, em sessões nos dias 10 e 11 de julho. A peça, adaptada e dirigida por Carlos Carvalho, retoma um dos núcleos mais políticos da obra de Hermilo.

Ao articular arquivo, formação, pesquisa e encenação, a edição de 2026 reafirma a função que a Semana cumpre desde 2002: manter Hermilo Borba Filho em circulação pública.

Peça com alunos do curso de teatro da UFPE, com concepção e direção de Marcondes Lima. Foto: Divulgação

Sob Julgamento leva Brecht, rito jurídico e formação universitária para a abertura da Semana

Escolhido para abrir a programação cênica da Semana Hermilo, Sob Julgamento conjuga procedimento teatral, matéria jurídica e formação universitária. Com concepção e direção de Marcondes Lima, o espetáculo se baseia no ideário brechtiano e se estrutura em cinco episódios que acompanham o curso de uma ação judicial: citação do réu, resposta do réu, instrução probatória, alegações finais e sentença.

As cenas são construídas a partir de fatos reais e de trechos extraídos da obra de Bertolt Brecht, costurados por músicas do cancioneiro brasileiro. O resultado, segundo a proposta da montagem, é um percurso por julgamentos justos e injustos, num tempo em que o tema da sentença, da culpa e da disputa por verdade se impõe no espaço público.

O espetáculo reúne no elenco Amanda Camyle, Ana Carolina, Anne Oliveira, Brenda Lima, Carlos Alberto, Diana Goiana, Gusttavo Revorêdo, Laura Ianes, Letícia Gonçalves, Lia Mariz, Marcus Azevedo, Marcus Carvalho, Maria Morim, Nívia Mariana, Ocean, Rayssa Tawane e Vinny Carvalho. Tem apoio pedagógico e assistência de direção de Marina Lino, produção de Grazielly Santana e Mariana Castelo, cenografia e figurino de Marcondes Lima e coletivo, maquiagem de Marina Lino e coletivo, iluminação de Nelba Santos, sonoplastia de Marina Lino e coletivo, coordenação do LAFACE por Rose Mary Martins e Marcondes Lima, além de design gráfico e fotografia do Estúdio Dionísio.

Na leitura de Carlos Carvalho, a presença de Sob Julgamento na Semana faz sentido também pela forma. Trata-se de um espetáculo anti-ilusionista, afinado com um ambiente de pesquisa e formação, realizado por estudantes do curso de teatro da UFPE. Nesse sentido, a peça entra na programação como trabalho convidado e como sinal de continuidade entre estudo, cena e pensamento teatral.

Ingressos gratuitos serão distribuídos uma hora antes do início de cada sessão.

Fátima Aguiar e Paulo de Pontes em O Traidor. Foto: Divulgação

O Traidor leva ao palco Zumba e a violência do poder

Entre os trabalhos apresentados na Semana Hermilo, O Traidor ocupa um lugar particular. A montagem, definida como adaptação livre do conto homônimo de Hermilo Borba Filho, tem dramaturgia e direção de Carlos Carvalho e se apoia, segundo a equipe, na experiência do elenco e numa cena de linguagem essencial, anti-ilusionista, centrada na palavra e na interpretação.

É a história de Clerivaldo dos Santos da Silva, conhecido como Zumba Dentão, sapateiro, militante bolchevique e figura popular de Palmares, na Zona da Mata Sul de Pernambuco. Inserido numa sociedade marcada pelo coronelismo, pelo poder dos usineiros e pela desigualdade social, Zumba dedica a vida à militância por uma sociedade igualitária. Por causa dessa atuação, é preso e torturado diversas vezes, o que transforma seu apelido em Zumba Sem Dente.

Casado com Discleide, também comunista – e, na peça, apreciadora de filmes de bangue-bangue americanos -, Zumba decide se candidatar a prefeito. O ponto de ruptura da história se dá quando ele é sequestrado e torturado. A peça incorpora ainda um dado trágico decisivo: Zumba era analfabeto. Quando a cidade busca encontrar uma tentativa de libertá-lo da cadeia, um bilhete é enviado para avisá-lo sobre a ação. A versão espalhada por Cabo Luiz, no entanto, é a de que o sapateiro teria entregado o conteúdo às autoridades, provocando prisões. Em seguida, a rádio noticia que Zumba, em suposta tentativa de fuga, teria sido abatido a tiros. Discleide recebe o corpo mutilado.

O elenco é formado por Paulo de Pontes, Fátima Aguiar e Cleusson Vieira. Paulo de Pontes interpreta Zumba; Fátima Aguiar, Discleide; e Cleusson Vieira, Cabo Luiz. Carlos Carvalho assina ainda desenho de luz, figurino e adereços. A peça tem 45 minutos de duração e busca um diálogo direto entre atores e plateia, com ênfase na palavra viva e na exposição da narrativa sem ilusão de naturalismo.

Serviço

Semana Hermilo 2026

De 4 a 11 de julho
Teatro Hermilo Borba Filho
Entrada gratuita

Programação

04/07 – Sábado
19h – Abertura e estreia da exposição Mão Molenga — 40 anos de história
20h – Espetáculo Sob Julgamento , com alunos do CAC/UFPE

05/07 – Domingo
19h – Espetáculo Sob Julgamento, com alunos do CAC/UFPE

06/07 – Segunda-feira
19h – Palestra Da manhã à meia-noite — A modernidade expressionista nas dramaturgias de Nelson Rodrigues e Hermilo Borba Filho, com Samantha Lima de Almeida e Anco Márcio Tenório Vieira
Mediação: Carlos Carvalho

07/07 – Terça-feira
19h – Palestra Êxodo, desordem e mito — A sátira menipeia em Os Ambulantes de Deus, novela de Hermilo Borba Filho, com Raphael Victor Alves de Jesus e Marcondes Lima
Mediação: Carlos Carvalho

08/07 – Quarta-feira
19h – Palestra Metaficção e intermidialidade no romance Agá, de Hermilo Borba Filho, com Eron Villar e Yuri Jivago Amorim Caribé
Mediação: Carlos Carvalho

09/07 – Quinta-feira
19h – Palestra Hermilo Borba Filho. TPN, o teatro do mundo, com Luiz Reis e Ivana Moura
Mediação: Carlos Carvalho

10/07 – Sexta-feira
19h – Espetáculo O Traidor, adaptação do conto homônimo de Hermilo Borba Filho, com dramaturgia e direção de Carlos Carvalho

11/07 – Sábado
19h – Espetáculo O Traidor, adaptação do conto homônimo de Hermilo Borba Filho, com dramaturgia e direção de Carlos Carvalho

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Festival celebra infâncias no Recife em julho

 

O 22º Festival de Teatro para Crianças de Pernambuco reúne 15 espetáculos, inclusive a produção portuguesa Vamos para Bremen, da companhia TeatroPlage, de Lisboa.  

Pluft, o Fantasminha, da Cênicas Cia de Repertório Foto: Wilson Lima / Divulgação 

Edição homenageia os 40 anos do Mão Molenga. Foto: Reprodução do Youtube

Um balão que não consegue voar, um burrinho que decide sair de casa, uma menina em busca de um baobá sagrado, um Pinóquio em versão musical e até um Hamlet levado para o circo. A 22ª edição do Festival de Teatro para Crianças de Pernambuco aposta na versatilidade de linguagens, temas e formatos. De 4 a 26 de julho, o evento ocupa os teatros de Santa Isabel, do Parque e Barreto Júnior com 15 espetáculos, além de programação gratuita em espaços públicos e ações formativas voltadas a artistas, educadores e público.

Com o tema “Aplausos para a Imaginação”, essa edição se organiza em três frentes: palco, com os espetáculos apresentados nos teatros; rua, com atrações gratuitas de artes cênicas e circo; e formação, com o 12º Colóquio do Teatro para Infâncias e Juventude, oficinas e palestras presenciais e online. A realização é da Métron Produções, de Edivane Bactista e Ruy Aguiar, com incentivo do SIC – Sistema de Incentivo à Cultura do Recife, Fundação de Cultura Cidade do Recife, Secretaria de Cultura e Prefeitura do Recife.

A curadoria deste ano é assinada por Marcondes Lima, Ruy Aguiar e Williams Sant’Anna. Marcondes atua como encenador, cenógrafo, figurinista, maquiador, ator e docente; Ruy Aguiar reúne trabalhos em coordenação de produção, dramaturgia, direção e gestão cultural; e Williams Sant’Anna transita entre teatro e circo, com atuação como pesquisador, encenador, palhaço, ator, dramaturgo e gestor cultural. O festival homenageia os 40 anos do Mão Molenga Teatro de Bonecos, grupo pernambucano de referência na cena para infâncias.

A abertura, no Teatro de Santa Isabel, será com Vamos para Bremen, da companhia portuguesa TeatroPlage, de Lisboa. Inspirado em Os Músicos de Bremen, dos irmãos Grimm, o espetáculo parte da história de personagens que seguem juntos em busca de outro lugar, apoiando-se na ideia de cooperação. Ainda no Santa Isabel, o festival reúne dois títulos baseados em contos já conhecidos do público infantil. O Sapatinho de Cristal, de Roberto Costa Produções / Yuri Costa, retoma a história de Cinderela, a jovem explorada pela madrasta e pelas irmãs até ter o destino alterado pelo baile e pelo famoso sapato perdido. Já Bonezinho Vermelho, da Métron Produções, parte do universo de Chapeuzinho Vermelho para uma encenação musical. Fecha a programação no Santa Pluft, o Fantasminha, da Cênicas Cia de Repertório, nova passagem do clássico de Maria Clara Machado sobre o fantasma que teme gente e acaba encontrando amizade na convivência com a menina Maribel.

Dia da Libélula. Foto: Raffael Quirino / Divulgação

A programação vem com um recorte mais heterogêneo no Teatro do Parque. Hélio, o Balão que não Consegue Voar, de Cleyton Cabral e Coletivo de Artistas, usa formas animadas e manipulação de objetos para contar a história de um balão de loja de festas que não consegue fazer aquilo que todos esperam dele. A peça tem dramaturgia premiada no Prêmio Ariano Suassuna de Cultura Popular e Dramaturgia e trata do autismo por meio da trajetória desse personagem. Em O Dia da Libélula, da Companhia Teatralizar, o centro da ação é Babete, uma jovem libélula que descobre que viverá apenas um dia e, a partir daí, atravessa um pântano habitado por figuras estranhas e poéticas. É uma peça construída como jornada: há uma personagem, uma descoberta e um percurso.

Também no Parque, Helô, em Busca do Baobá Sagrado, da DoceAgri, acompanha uma menina negra de cabelos crespos que percebe a tristeza se espalhar pelo lugar onde vive. Orientada pela avó, conhecida como Velha Cachimbeira, e acompanhada pelo pai, Helô sai em busca do baobá sagrado, numa história que articula aventura, ancestralidade e identidade. João e o Pé de Feijão, da Capibaribe Produções, leva ao palco a narrativa do menino que troca a vaca da família por feijões mágicos e sobe até o território do gigante. Os 3 Super Porquinhos, de Roberto Costa Produções / Yuri Costa, transforma o conto dos porquinhos e do lobo em comédia musical. Já Queijo & Goiabada, da Cia 2 em Cena, aparece como uma das estreias da grade e parte de uma recriação para infâncias de Romeu e Julieta, filtrada por referências populares. Encerrando a programação do Parque, Quem Mente o Nariz Cresce, uma História de Pinóquio, da Arretado Produções, retoma o personagem criado por Carlo Collodi em montagem que combina teatro, música, circo e bonecos animados.

No Teatro Barreto Júnior, a sequência convoca alguns dos trabalhos mais marcados pela visualidade. O Burro Errante, da dupla Habib e Valeria, é baseado no livro homônimo de Habib Zahra e acompanha um burrinho criado numa família superprotetora que decide partir. A montagem utiliza teatro de sombras coloridas e música ao vivo, apoiando-se mais na construção imagética da travessia. Os Protetores dos Oceanos, do Espaço Cultural Vovozito/Falcões Produções, usa teatro de bonecos para narrar a saga de animais marinhos e, a partir dela, discutir a relação humana com o mar e com a preservação ambiental. Em Histórias Pontilhadas, da Companhia Conta Gotas, o público acompanha Zeca, Olga e Bina, uma família de alfaiates e costureiras que percorre caminhos reais e imaginários com sua carroça-casa. Já Hamlet no Circo, da Circus Produções Artísticas / Davison Wescley, desloca a tragédia de Shakespeare para a linguagem do circo e da palhaçaria.

No festival convivem clássicos reencenados, dramaturgias recentes, teatro de bonecos, sombras, musicais, circo e formas animadas. E com isso apresenta um recorte do que diferentes grupos têm produzido para crianças hoje, com companhias de Pernambuco, Paraíba e Portugal.

Ao homenagear os 40 anos do Mão Molenga Teatro de Bonecos, o festival celebra nesta edição uma referência importante da cena pernambucana para crianças. Fundado em 1986, o grupo construiu uma trajetória ligada ao teatro de bonecos e ao diálogo entre elementos visuais, música e atuação. A escolha do Mão Molenga também encontra eco na própria programação, marcada pela presença de bonecos, formas animadas e encenações em que a visualidade tem peso decisivo.

O Burro Errante. Foto: José Rebelatto / Divulgação

Programação

Teatro de Santa Isabel

04 de julho, 16h30Vamos para Bremen – TeatroPlage (Lisboa, Portugal)
05 de julho, 11hO Sapatinho de Cristal – Roberto Costa Produções / Yuri Costa (Paulista-PE)
11 de julho, 11hBonezinho Vermelho – Métron Produções (Recife-PE)
12 de julho, 16h30Pluft, o Fantasminha – Cênicas Cia de Repertório (Recife-PE)

Teatro do Parque

05 de julho, 11hHélio, o Balão que não Consegue Voar – Cleyton Cabral e Coletivo de Artistas (Recife-PE)
11 de julho, 11hO Dia da Libélula – Companhia Teatralizar (Abreu e Lima-PE)
12 de julho, 16hHelô, em Busca do Baobá Sagrado – DoceAgri (Recife-PE)
18 de julho, 11hJoão e o Pé de Feijão – Capibaribe Produções (Moreno-PE) – estreia
19 de julho, 11hOs 3 Super Porquinhos – Roberto Costa Produções / Yuri Costa (Paulista-PE)
25 de julho, 16hQueijo & Goiabada – Cia 2 em Cena (Recife-PE) – estreia
26 de julho, 16h – Quem Mente o Nariz Cresce, uma História de Pinóquio – Arretado Produções (João Pessoa-PB)

Teatro Barreto Júnior

11 de julho, 11h – O Burro Errante – Habib e Valeria (Olinda-PE)
12 de julho, 16hOs Protetores dos Oceanos – Espaço Cultural Vovozito / Falcões Produções (Igarassu-PE)
18 de julho, 11hHistórias Pontilhadas – Companhia Conta Gotas Produções / Tarcísio Vieira (Recife-PE)
19 de julho, 11hHamlet no Circo – Circus Produções Artísticas / Davison Wescley (Jaboatão dos Guararapes-PE)

Rua

A programação inclui apresentações gratuitas de artes cênicas e circo em espaços públicos do Recife

Formação

12º Colóquio do Teatro para Infâncias e Juventude
Oficinas e palestras presenciais e online
Atividades gratuitas para artistas, educadores e público

Serviço

22º Festival de Teatro para Crianças de Pernambuco
Quando: de 4 a 26 de julho de 2026, aos sábados e domingos
Horários: 11h, 16h e 16h30
Onde: Teatro de Santa Isabel, Teatro do Parque e Teatro Barreto Júnior, no Recife
Ingressos: entre R$ 30 e R$ 120; ingressos sociais entre R$ 40 e R$ 50
Realização: Métron Produções
Incentivo: SIC – Sistema de Incentivo à Cultura do Recife / Fundação de Cultura Cidade do Recife / Secretaria de Cultura / Prefeitura do Recife
Informações: teatroparacrianca.com.br

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